Siamese Towers, Campus San Joaquín da Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile, 2005, arquiteto Alejandro Aravena
Siamese Towers, Campus San Joaquín da Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile, 2005, arquiteto Alejandro Aravena

Gabriela Celani e David Sperling: No livro Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity (2013) você apresenta uma posição crítica sobre o ornamento ao longo da história da arquitetura, colocando-o entre subjetividade e política. Como você diz na introdução do livro: “O retorno do ornamento está ligado tanto ao novo tipo de subjetividade característica da era digital quanto à possibilidade de contribuição da arquitetura para os significados e valores coletivos emergentes”. Se o retorno do ornamento está claramente ligado à era digital, em termos de subjetividade, poderíamos dizer que ele está intimamente ligado à própria lógica da produção digital e às forças estruturais que lideram a indústria criativa e o neoliberalismo? Isso não é, em última análise, um reforço ao poder de muito poucos de decidir e produzir o que será consumido como bens comuns? Se sim, que tipo de significados e valores coletivos você vê emergindo dos star architects da era digital?

Antoine Picon: O ornamento está, obviamente, ligado à lógica da produção digital. Por exemplo, o computador permite brincar com texturas, modular a forma etc. Mas acho que o aspecto mais profundo tem a ver com novas formas de subjetividade, o que também está relacionado ao que eu disse sobre a competição entre cidades. A experiência urbana tornou-se uma dimensão completamente estratégica do urbanismo contemporâneo. Então, vai muito além da lógica da produção digital. É realmente um anseio por uma arquitetura que, como a moda, como a culinária, fará parte dessa experiência. Eu acredito que com o digital podemos compartilhar experiências, sensações. Isso reforça o poder dos poucos que decidem e produzem o que consumimos como bens comuns? Eu acho que a arquitetura não é democrática. Ela está ligada ao poder, gostemos ou não. E, em geral, ela não é emancipatória. Ela pode ser mobilizada para objetivos emancipatórios, mas raramente é emancipatória. Tomemos Aravena como exemplo. É muito impressionante como ele vem construindo com muito mais frequência para a Universidade Católica do que para os pobres.

GC/DS: ...que é o que vem sendo mais divulgado...

AP: O que a arquitetura pode fazer é rever a realidade de uma situação. O ornamento é um bom revelador de estruturas de poder, significados sociais, incluindo ideologias. Esta é uma das razões pelas quais eu tenho clamado pela volta do ornamento, porque a negação do ornamento é ainda pior; está ligado à ficção de que a arquitetura pode tratar a todos como iguais, o que não é verdade.

GC/DS: O que também está relacionado com a industrialização.

AP: Provavelmente, a grande ambição dos modernos era que todos pudessem ser tratados da mesma forma através da arquitetura. Mas isso na verdade falhou. Eu gostaria que a arquitetura fosse diferente, mas é por isso que a maioria dos textos sobre arquitetura e política falham; porque não existe arquitetura democrática.

GC/DS: Uma coisa que eu tenho ouvido muito é que os edifícios têm que ser bonitos para que as pessoas os amem e eles os mantenham, e isso é mais sustentável do que destruí-los.

AP: Minha interpretação disso é que, para ser suportável, a vida precisa ter significado. O papel da arquitetura é criar um ambiente com significado para a vida humana. O que a arquitetura faz acima de tudo é criar ambientes, ambientes em que a ação humana pareça ter um significado. A arquitetura torna a vida significativa, razão pela qual devemos mantê-la, não apenas porque ela é bonita. Significativo é mais profundo do que bonito. Isso quer dizer que o ser humano tem um lugar lá. Sem arquitetura não há lugar para os humanos; há apenas um lugar para os animais e para os fenômenos naturais. Existe uma história sobre Roma, na qual Romulus traça o limite da cidade, e o limite da cidade transforma o que está dentro dele. É o lugar que pertence à vida pública cívica, a um conjunto de valores etc. Para mim, a arquitetura é isso. É traçar uma espécie de limite e criar uma arena na qual a ação humana tem um significado.

GC/DS: E você acha que a beleza está relacionada ao ornamento?

AP: O ornamento tem mais a ver com prazer do que com beleza. E acima de tudo, tem a ver com significado. Eu escrevi um livro que tem uma contraproposta em comparação à de Farshid [Moussavi], que fala sobre afeto. Acredito profundamente que o ornamento ajuda a tornar o mundo significativo. A palavra ornamento tem a mesma etimologia, em latim, da palavra ordem, que é uma das razões pelas quais Gombrich deu o título a seu livro [The Sense of Order: A Study in the Psychology of Decorative Art]. O ornamento contribui para criar um mundo ordenado, onde os humanos podem ver que existe uma ordem humana. Então, há um lugar para eles.

Loja de departamentos e Cineplex John Lewis, Leicester, Inglaterra, 2008, arquiteta Farshid Moussavi
Loja de departamentos e Cineplex John Lewis, Leicester, Inglaterra, 2008, arquiteta Farshid Moussavi