Nicolas Vargas como Bonobo, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem
Nicolas Vargas como Bonobo, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem

Thiago Stivaletti: Qual foi o seu ponto de partida em termos estéticos e narrativos?

Roberto Gervitz: Procurei manter a atmosfera do livro: seca, precisa e realista. Assim, escrevi diálogos econômicos, principalmente os de Hermano que, por vezes, são quase lacônicos. Não há diálogos reflexivos, pensamentos ou formulações literárias; evitei também os psicologismos — a psicologia dos personagens se revela na ação. A edição de Manga Campion que deixou a sua marca com importantes soluções estruturais, manteve a mesma secura, sem espaços para a contemplação. Inicialmente eu pensava até em um filme sem música, mas durante a edição, senti tal necessidade. Isso foi decidido com o próprio músico Luiz Henrique Xavier que fez um trabalho marcante. A trilha musical é pouco melódica e não reitera emoções, criando atmosferas evocativas do que não é visível na tela. A trilha sonora é delicada — complexa mas essencial, em consonância com todo o resto — desenhada e mixada por Kiko Ferraz e Christian Vaisz.

Em termos narrativos, procurei contar de forma precisa e sem “poesia” uma história mínima. Não quis “esfregar no nariz” do espectador pontuações do tipo “isso é importante” ou “pense nisso”, “emocione-se aqui”. Narrativamente, o filme se aproxima de uma estrutura clássica – evolui através dos conflitos de Hermano com os personagens que o cercam e por meio de flashbacks, tirando partido de interrupções bruscas entre as duas épocas da narrativa. O final do filme está longe de ser enigmático, mas deixa nas mãos do espectador o destino de Hermano e também de Adri.

TS: Uma das decisões fundamentais do filme foi a escolha do casal protagonista, vivido por Armando Babaioff e Mariana Ximenes. Como chegou a eles? E quais as qualidades que você sente que eles trouxeram para Hermano e Adri?

RG: Hermano e Adri são incapazes de sair de si mesmos, conceder e compartilhar a vida, encerrados que estão em seus próprios projetos pessoais. A partir de um momento-chave e de acirramento onde se chocam a inesperada gravidez de Adri e a temerária escalada de Hermano, procuro refletir a solidão e o narcisismo pós-modernos, em uma época destituída de sonhos coletivos.

Armando Babaioff e Mariana Ximenes tiveram o desafio de viver personagens intimamente duros, fechados em si mesmos, mas com características bem diferentes um do outro.

O Armando, assim como Áurea Maranhão e Daniel Volpi, foi escolhido a partir de testes extensos. Sempre pensei Prova de coragem como um filme de ator e, portanto, mirava na contribuição que cada um poderia trazer para o seu papel. Contei tanto no trabalho de seleção como no de preparação com as valiosas colaborações de Nara Sakarê, Angélica Figuera e Dani Fogliatto.

Armando Babaioff como Hermano, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem
Armando Babaioff como Hermano, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem

Babaioff é um ator da mais alta seriedade e, como protagonista, está em cerca de 85% das cenas deste filme que lhe exigiram muito, tanto física como emocionalmente. Foi um ator incansável, deu verdade a Hermano, com grande delicadeza e contenção. Podemos sentir todas as suas variações ao longo do filme e acompanhar o processo de transformação que ele atravessa.

Mariana sempre foi uma atriz com quem quis trabalhar. Ela irradia uma grande energia, um enorme prazer em atuar; está sempre aberta a descobrir e tentar novas coisas. O apelido de Leoa dado a Adri por Thales, o obstetra interpretado por César Troncoso, é a perfeita tradução do trabalho desempenhado por Mari.

Enviei-lhe o roteiro e ela de cara topou fazer o papel de Adri, uma mulher intensa e voraz para com a vida; sensível, mas intransigente. Adri concentra muitas características da mulher de nossos dias: prática, desglamorizada e às voltas com os seus inúmeros papéis. Mariana deu a Adri a pulsação, o fogo e a urgência que o personagem necessitava.

TS: Como foi o trabalho com os atores mais jovens, que vivem Hermano, Bonobo, Naiara e toda a turma entre os 14 e 16 anos? Há um desafio em trabalhar adolescentes para um filme?

RG: Fiquei muito satisfeito com o trabalho do núcleo adolescente. Indiscutivelmente há verdade e pulsação ali. Devo muito isso ao trabalho de quatro semanas feito por Angélica Figuera, uma grande colaboradora.

Buscamos e conseguimos criar uma intimidade entre eles, um espírito necessário de turma, e conquistamos a confiança sem a qual o trabalho não se daria. Alguns deles jamais haviam atuado antes. Não quisemos mudar o jeito de cada um, pelo contrário, só trouxemos suas características à tona – isto bastou para desenhá-los. Creio que o grande desafio de trabalhar com adolescentes em um filme é colocá-los “inteiros” para viver uma situação, fazer com que eles atinjam uma verdade, esquecendo os seus medos e preconceitos através do prazer lúdico de atuar. Eles foram muito corajosos e ousados, compreenderam perfeitamente o que estavam fazendo ali — vivendo e contando uma história.

Mariana Ximenes como Adri, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem
Mariana Ximenes como Adri, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem