Residência Heládio Capisano, São Paulo, 1960. Arquitetos Rodrigo Lefévre e Sérgio Ferro

Daniela Colin: Paulo Freire diz que um homem que simplesmente apreende as idéias de outro, como ocorre com os operários na divisão mão-mente do trabalho, não consegue desenvolver sua capacidade crítica em relação ao mundo e à sua própria condição. Vocês [grupo Arquitetura Nova] conseguiram fazer com que os operários compreendessem e passassem efetivamente a fazer parte desse processo de crescimento mútuo?Sérgio Ferro: Eu acho que sim. Por duas razões: primeiro alguns dos operários que trabalharam conosco fizeram casas para eles mesmos, com sistemas bem parecidos com que a gente pregava. Espontaneamente, em auto-construção e tudo. Este é o primeiro caso. O segundo, quando nós fomos presos, o Rodrigo e eu, havia um canteiro em andamento e eles mesmos continuaram o canteiro, dentro da nossa lógica, dentro dos princípios do “desenho e o canteiro”, tendo assimilado completamente as idéias, os princípios, etc. Então eu acho que eles assimilaram bem.

DC: Ainda segundo Paulo Freire, todo homem é um ser inacabado e que, por isso, não pode existir aprender sem ensinar e ensinar sem aprender. O que você aprendeu com a experiência de canteiro do Arquitetura Nova?

SF: Aprendi enormemente. Enormemente! E até hoje, em qualquer canteiro que eu acompanhe, faça, etc. há um aprendizado. Na verdade, exatamente pelos princípios que a gente tinha, que têm, ser atento ao canteiro, ao processo produtivo, às necessidades, dificuldades e problemas do trabalho, vivendo com o canteiro, vivendo no canteiro, e seguindo o canteiro, o aprendizado é constante. Exatamente em função da atenção que a gente dá às condições de produção. As condições de produção, variam, evoluem, etc. Então o aprendizado nosso é e era constante.

DC: Vocês [grupo Arquitetura Nova] usavam Paulo Freire no canteiro?

SF: O Rodrigo [Lefèvre] usava muito. O Rodrigo gostava muito do Paulo Freire.

DC: E como o Lefèvre fazia isso?

SF: Você conhece o trabalho do Rodrigo, a tese dele, né? Lá ele explica direitinho como ele utilizou o Paulo Freire e o quê do Paulo Freire foi útil para ele. O Rodrigo utilizou muito mais o Paulo do que eu.

Residência Heládio Capisano, São Paulo, 1960. Arquitetos Rodrigo Lefévre e Sérgio Ferro