Escrever a história da arquitetura do século 20 no século 21 tem vantagens que Jean-Louis Cohen soube aproveitar. A mais óbvia é a mais importante: a distância histórica. O que se lê nestas páginas não é um discurso apaixonado e partidário, nem tampouco contestador e recalcado. Cohen adota o ponto de vista rigoroso do historiador da cultura, buscando flagrar o modo como a arquitetura se transforma em meio às mudanças radicais da modernidade. Por isso, não se pretendeu escrever a história do modernismo arquitetônico – isso seria dar um caráter de hegemonia a seus princípios ideológicos e temporais no século, consubstanciados na ideia do novo com o fator de progressão histórica.

Sede da Associação dos Produtores de Fios Têxteis, Le Corbusier, Ahmedabad, Índia, 1951-54
Sede da Associação dos Produtores de Fios Têxteis, Le Corbusier, Ahmedabad, Índia, 1951-54
Casa del Fascio, Guiseppe Terragni, Como, Itália 1932-36, fotomontagem com multidão
Casa del Fascio, Guiseppe Terragni, Como, Itália 1932-36, fotomontagem com multidão

A narrativa historiográfica se estrutura aqui a partir de eixos de simultaneidade, no qual as formas predominantes (estão aí o justo destaque aos mestres Mies, Gropius, Aalto, Wright e Kahn) não são homogêneas nem muito menos inevitáveis. Em paralelo, correm inúmeras proposições alternativas, que Cohen trata com igual cuidado. Para citar um caso exemplar: Le Corbusier é, sem dúvida, um grande centro de força, mas seu protagonismo se mede tanto pela maneira que pensou a arquitetura perante os desafios da modernidade e as várias respostas poéticas que formulou, quanto pela influência que provocou em arquitetos de diferentes nações – isto é, como tal presença foi assimilada, processada, deglutida e eventualmente transformada. É assim que, particularmente, o caso da moderna arquitetura brasileira é exposto: um exemplo de recepção produtiva.

Convento de Sainte-Marie-de-la-Tourette, Le Corbusier, Eveux-sur-l’Arbresle, França, 1953-60
Convento de Sainte-Marie-de-la-Tourette, Le Corbusier, Eveux-sur-l’Arbresle, França, 1953-60
Hospital no bairro de Cannaregio, projeto, Le Corbusier, Veneza, Italia, 1962-65
Hospital no bairro de Cannaregio, projeto, Le Corbusier, Veneza, Italia, 1962-65
Superquadras, Lucio Costa, Brasília, Brasil, 1960
Superquadras, Lucio Costa, Brasília, Brasil, 1960
Wallace K. Harrison, Le Corbusier e Vladímir Bodianski (da direita para a esquerda) diante de uma maquete do edifício da ONU, Nova York, EUA, 1947
Wallace K. Harrison, Le Corbusier e Vladímir Bodianski (da direita para a esquerda) diante de uma maquete do edifício da ONU, Nova York, EUA, 1947

Para Cohen, a arquitetura é igualmente a história dos fatos e a história dos debates intelectuais. Por isso, analisa não só as obras construídas, mas também os projetos não realizados, as formas de divulgação para o grande público e os documentos teóricos produzidos.

Em O futuro da arquitetura desde 1889, os “fatos de transição” – em geral tidos meramente como ocorrências preparatórias aos grandes eventos e tratados de forma rápida na historiografia da arquitetura moderna – recebem especial atenção. Momentos de revelação surgem: a importância de Auguste Perret é fundamentada, o perfil de Robert Mallet-Stevens adquire clareza e até mesmo a exposição art déco de 1925 é descrita com isenção, dando a ver o trânsito entre alguns designers e os arquitetos radicais. Outro tradicional ponto cego, a arquitetura no período das guerras mundiais – normalmente sinônimo de “paralisia cultural” – é visto pelo autor como um momento de aceleração da modernização, em que a produção da arquitetura não se interrompe, mas se desloca para o aparato da guerra (hangares, indústrias, alojamentos, fortalezas etc.). Cohen não deixa de apontar, inclusive, o processo pelo qual os avanços tecnológicos da guerra são aplicados, logo após o término do conflito, em outras esferas da produção industrial, sobretudo a habitação e as obras de infraestrutura.

Hunstanton Secondary School, Alison e Peter Smithson, Norfolk, Reino Unido, 1949-54
Hunstanton Secondary School, Alison e Peter Smithson, Norfolk, Reino Unido, 1949-54
Salk Institute for Biological Studies [Instituto Salk de Estudos Biológicos], Louis Kahn, La Jolla, California, EUA, 1959-1965
Salk Institute for Biological Studies [Instituto Salk de Estudos Biológicos], Louis Kahn, La Jolla, California, EUA, 1959-1965

Ao longo do século 20, o “futuro da arquitetura” foi pensado de modo variado por correntes distintas, independentemente de sua coloração ideológica. Todavia, o século que alimentou esperanças no progresso, no socialismo, na tecnologia e na nova cidade, também produziu catástrofes inéditas – veja-se a incomparável mortalidade nas grandes guerras. O texto de Cohen assinala claramente as diferentes expectativas de futuro: uma é projetiva, esperançosa nas novas formas estéticas e sociais do mundo, exemplarmente demonstrada por Corbusier e pela Bauhaus; a outra, de desconfiada confiança e ceticismo, é explicitada nas extravagantes e corrosivas imagens do Archigram e de Constant, fundadas na imaginação técnica e lúdica.

Whitney Museum of American Art, Marcel Breuer, Nova York, EUA, 1963-1966
Whitney Museum of American Art, Marcel Breuer, Nova York, EUA, 1963-1966

Depois de expor a crise do moderno, acossado pelo pós-modernismo, o livro se detém nos novos centros que promovem uma autêntica renovação intelectual da arquitetura no período de 1960 a 1980, quando a hegemonia se torna americana. Para o autor, os limites da definição de uma arquitetura dominante no século xx se vêem na obra de Frank Gehry, Peter Eisenman e Rem Koolhaas, que retomam as bases da arquitetura moderna para criticá-la e assim formular novos paradigmas de projeto.

Ao final de sua narrativa, Cohen aponta os desafios do novo milênio nesse mundo de alta tecnologia, sim, mas onde o futuro não passa de uma pálida imagem passada.

O fim do colonialismo, do socialismo, do domínio do estado-nação e a fatal crise do urbanismo impuseram uma nova cartografia na qual os arquitetos agora atuam em escala multinacional e em parceria com grandes corporações globais nessa realidade aberta e pluralista da contemporaneidade.

Não sem uma leve melancolia, a narrativa do século 20 na arquitetura termina com o reconhecimento do abandono exacerbado do compromisso dela com a sociedade, compromisso esse que teria gerado os projetos da modernidade. Afinal, pode um presente existir sem um horizonte de futuro?

Congresso Nacional, Oscar Niemeyer, Brasília, Brasil, 1960
Congresso Nacional, Oscar Niemeyer, Brasília, Brasil, 1960

nota

NE
Texto publicado originalmente na orelha do livro.

sobre o autor

João Masao Kamita é professor da PUC-Rio