Fotograma de “Estratégia da Aranha” (“Strategia del Ragno”, no original italiano), direção de Bernardo Bertolucci, 1970
Fotograma de “Estratégia da Aranha” (“Strategia del Ragno”, no original italiano), direção de Bernardo Bertolucci, 1970

Qualquer que seja o universo em que o professor acredite, deve ser, de qualquer modo, um universo que se preste a um discurso prolongado. Um universo definível em duas palavras é alguma coisa para a qual o intelecto professoral não tem uso.
 William James, “Pragmatismo” [in] Pragmatismo e outros textos. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979, p. 3.

Um livro fácil de ler, que captura o leitor da primeira à última página, é certamente incomum na área da arquitetura. Especialmente quando é um livro “de texto” (embora contenha várias e oportunas imagens ilustrativas) que magistralmente aborda a teoria e história de arquitetura, seu ensino e aprendizado; e o faz de maneira profunda, pertinente e sem qualquer pedantismo. Parece bom demais, mas é verdade: trata-se do mais recente livro de Gustavo Rocha-Peixoto, lançado em 2013 pela editora Rio Book’s. É um prazer desfrutá-lo, em todos os sentidos e aspectos, a começar pelo título: A estratégia da aranha. Poderia ser o nome de um eletrizante blockbuster de detetive – e de certa maneira, também é. Também poderia ser um relato de viagem, ou uma biografia de aventuras: é tudo isso, e mais.

Sua leitura tão agradável talvez se origine do fato do texto não ter sido escrito originalmente para ser lido, mas para ser ouvido: trata-se da aula magistral dada pelo autor na ocasião de seu concurso para professor titular na UFRJ, acontecido em 2011. Mas todos sabemos o quanto uma conferência pode ser enfadonha; e como não é nem foi o caso, sua atrativa leveza não se deve a essa peculiaridade, e sim, à qualidade intrínseca da sua narrativa. Que aliás, nada perdeu na adaptação para o livro, exceto talvez o prazer de escutar o autor de viva voz.

A estratégia da aranha é também uma biografia “científica”, pois o autor inicia contando o que viveu, fez e faz, sobre o que trabalha, como estuda, pesquisa e leciona, revelando suas experiências acumuladas e reflexões compartilhadas. Aproveitando desse lastro o autor transforma a ocasião de uma obrigação, que poderia ser penosa, em uma agradável “oportunidade”. Essa é a palavra chave de seu capítulo zero, onde Gustavo Rocha-Peixoto conta de qual cartola vai tirar seus coelhos, e como o fará – ou melhor, quais são os aparentes “acasos” que conformaram a possibilidade de organizar seu tema – o ensino de teoria e história da arquitetura – num discurso, ou conversa, ou aula. A qual, como declara o autor, vai se basear em uma constatação simples mas fundamental: “se sempre existiu o estudo do passado como quesito necessário à formação do arquiteto, esse estudo nem sempre foi motivado pelos mesmos interesses” [p. 26]. Sabendo-se que os interesses da arquitetura mudam ao longo do tempo, muda-se, com eles, a maneira de se compreender e ensinar a teoria e história da arquitetura. Lição número zero: quem ainda ingenuamente pensa que a história está pronta e posta em sossego, engana-se, ilude-se. Então preparem-se, que a fantástica (e porque não dizer, divertida) aventura de entender melhor as intrincadas e instigantes relações entre as mudanças na arquitetura, sua prática e seu ensino, já vai começar.

O livro se apresenta singelamente em os oito capítulos (além do zero, portanto um total de nove). Na minha opinião, estes poderiam ser entendidos como configurando uma estrutura triplamente trina. A primeira parte seria composta pelos três capítulos iniciais, nos quais Gustavo analisa cada um dos três modos do interesse da arquitetura pela história, correspondentes a “três maneiras da consciência do campo disciplinar [delimitar] o que cada época pode pensar e como pensou e o que não pode deixar de pensar” [p. 27, é dele a citação implícita de Michel Foucault]. Gustavo denomina-os “modo historicista”, “modo histórico-modernista” e “modo historiográfico-culturalista”. Embora correspondam, grosso modo, a uma certa sequência histórico-linear, vale relembrar o alerta do autor: “esses modos não são etapas ou fases sucessivas, mas três formas de articulação do pensamento arquitetônico em permanente debate” [p. 75]. Segue-se (também a meu ver) uma segunda parte ou intermezzo configurada pelo capítulo 4, denominado “cultura arquitetônica”. Ali o autor elabora mais detidamente sua reflexão sobre esse conceito chave, indispensável para a melhor compreensão do “modo” híbrido que vai propor adiante. A terceira parte seria a conformada pelos três capítulos finais, nos quais o autor desenvolve de maneira referenciada e detalhada as “possibilidades” do “ensino meta-histórico”, com base na “estratégia da aranha” – para citar os nomes desses capítulos de trás para diante.

Como se vê, o livro começa com oportunidades, e termina com possibilidades. A escolha dos termos não é inocente e afirma a posição do autor como não normativa, não ideológica, não impositiva, aberta, dialogante, inteligente. E como tal, assumindo o risco deliberado de se permitir o questionamento e a dúvida. Afinal, só os loucos e os tiranos tem certezas absolutas – e só os primeiros tem a seu favor estarem à mercê dos figmentos da imaginação (1).

Na primeira parte cada um dos “modos” é apresentado, como não poderia deixar de ser, abundantemente embasados nas referências de diversos autores que os configuram, e inteligentemente encadeados. De maneira que o livro também cumpre a meta-função de servir de hábil plataforma de lançamento: tanto para aqueles que estão apenas começando nas lides da arquitetura e seu ensino poderem se dedicar ao seu estudo com base nessas dicas; quanto para nos ajudar, os que estamos a mais tempo interessados nesse campo, a re-sistematizar de maneira hábil nossos conhecimentos e leituras. Só isso já bastaria para recomendar o livro a todos os que têm qualquer conexão com o assunto da arquitetura... Mas ainda há mais, bem mais.

No capitulo 4 “intermediário”, Gustavo explicita claramente a pergunta fundamental, aquela que anima toda sua empreitada: “como deve ser o ensino de história para o curso de arquitetura da FAU diante das transformações epistemológicas e estéticas operadas no campo da historia e da arquitetura nos últimos três decênios?” [p. 85]. Entende-se, claro, que embora a pergunta seja apresentada de forma circunstanciada – o autor não tem a pretensão de dar uma fórmula universal, pois se dirige a seus pares imediatos, no seio da sua escola – entretanto, certamente pode ser lida de maneira genérica, pois essa pergunta será sempre oportuna, em qualquer caso, em qualquer escola, de qualquer lugar que seja. E no melhor dos mundos possíveis, esse deveria ser, candidamente, o motor-imóvel aristotélico que animasse o (bom) ensino de arquitetura (e não apenas o ensino de sua história).

A pergunta que decorre dessa também é fundamental: “Para que serve ao ensino profissional de um arquiteto que há de projetar para o Brasil contemporâneo, estudar [a história da arquitetura] se esse ensino não conseguir se relacionar com o projeto?” [p. 86]. A resposta que Gustavo nos brinda não é uma receita, mas um método: “o pressuposto do estudo do passado é que ele é demandado pelo presente e o ajuda a compreender. Há algo no passado que interessa ainda. [...] E se é assim, toda reflexão deve partir do presente e dirigir-se à compreensão do presente” [p. 86].

Ninguém disse que é fácil: tal método exige, a priori, um domínio sábio, erudito e referenciado da cultura arquitetônica “em geral”, do passado ao presente. O exemplo absolutamente magistral que Rocha-Peixoto nos dá para ilustrar como se deve ensinar e estudar o passado é o denso roteiro que propõe para uma abordagem crítica da cultura arquitetônica, a partir de um singular edifício: a Casa França-Brasil, projeto original de Grandjean de Montigny. Não vou estragar a graça da leitura do seu livro, citando-a aqui au grand complet: por favor, leiam nas páginas 97-98. E depois me digam se este pequeno-grande livro é ou não uma rara lição de erudição sabiamente disfarçada, por modéstia e elegância, como uma leitura fácil e agradável... Chapeau!

Mas ainda há mais... Nos três últimos capítulos, Gustavo vai desenvolver sua estratégia aracnídea, complexa e contraditória como o artrópode peçonhento e inteligente que elege por imagem. Sedutoramente nos recorda uma das Ficções de Jorge Luiz Borges, um livro de ítalo Calvino e um filme de Bertolucci para dissertar sobre “a capacidade prática de se operar o repertório poético da arquitetura e da cidade com boa consciência de onde os fatos ocorreram e de onde se opera a observação, com que interesse e para que objetivos” [p.109]. Para finalmente explicar que “a história não é mais uma ‘procura’ ou uma ‘descoberta’ do conhecimento, mas a ‘invenção mesma do conhecimento’, provisório e incerto. [...] Inventar a história não é, de modo algum, falsear a verdade, mas é torná-la disponível mediante o recurso da narrativa” [p. 115, grifo do autor].

Segundo ele, é essa “estratégia da aranha” a maneira possível de se ensinar história no estado contemporâneo da arte (do ensino, do projeto, da arquitetura). Chama esse método de “meta-histórico”, e considera-o alternativo e não exclusivo. Em outros termos: os diferentes “modos” de ensino, sobre os quais ele nos explanou acima, não estão invalidados e obsoletos; e sim, podem seguir tendo uso e aplicação em determinadas circunstâncias. E além do mais, podem também servir de guia para ajudar a compreender os historiadores: cada um deles fornece referências e estabelecem narrativas que se baseiam, mais ou menos, em cada um dos diferentes modos – e se assim visto, se bem possam seguir sendo úteis, devem sempre ser lidos e aplicados com as devidas cautelas. Em outras palavras: “segundo o modo culturalista, a arquitetura é antes de tudo autoconsciência” [p. 127]. Nada é inocente, tudo é interpretação, e o bom projeto – para voltarmos ao coração daquilo que de fato interessa – tampouco. E é por isso que o modo historiográfico híbrido que propõe Rocha-Peixoto “deve mirar no objeto”, esclarecendo ele que “todas as relações a serem estabelecidas entre o objeto e as estruturas eleitas para interpretá-lo devem ser invocadas pela observação/experimentação objetiva, isto é, devem resultar de perguntas feitas ao objeto” [p.130].

Pessoalmente, costumo sugerir aos alunos entrevistarem as obras, em vez dos autores... Mas, sem querer radicalizar demais, o hábito de perguntar ao objeto deveria, isso sim, ser mais estimulado, sempre quando o ensino pretenda desenvolver a “autoconsciência” necessária e indispensável ao correto exercício do projeto de arquitetura. Ou seja: em vez de nos contentarmos com respostas já prontas para consumo, melhor ir às obras, que na sua mudez, falam volumes – se apenas nos dispusermos a ouvi-las.

No capítulo final Gustavo Rocha-Peixoto fala de possibilidades. Sente-se premido pelo tempo: afinal, era uma conferência, e não convinha cansar o ouvinte. Mas não podia deixar de contar como ele aplica, na prática, suas ideias – que aliás, não nascem antes mas conjuntamente com as práticas... Dá portanto alguns poucos mas preciosos exemplos, interessantíssimos, iluminadores, sobre “como venho pensando meu ofício de professor” [p. 148].

Esta resenha também poderia se estender, mas embora não seja suficiente, já basta. Vale porem mencionar que, em Post-Scriptum, Gustavo cita e homenageia seus colegas contemporâneos próximos e distantes, coisa que não cabia no concurso, mas graciosamente não podia faltar no livro; e até mesmo responde a alguns dos comentários críticos de colegas sobre sua aula magistral.

Dizem que um projeto não tem fim, e só acaba porque termina o prazo. Qualquer labor humano criativo sofre dessa mesma característica, de ser uma tarefa de Sísifo, interminável. Seja uma resenha, seja o ensino de arquitetura – e em especial, o de história e teoria – o tema será sempre inesgotável. Especialmente quando, como demonstra Gustavo Rocha-Peixoto, é o presente que anima e vivifica a história; e o tempo, não para e sempre muda tudo.

nota

1
NE – “Figmento” é um neologismo, pois se trata de uma palavra não existente na língua portuguesa. A autora refere-se ao termo em latim “figmentum”, que derivou na palavra em inglês “figment”. Em ambos os casos, o significado é “coisa puramente imaginária”.

sobre a autora

Ruth Verde Zein, arquiteta (FAU USP, 1977), mestre e doutora (Propar UFRGS, 2000 e 2005), professora e pesquisadora da FAU Mackenzie.