Alberto Martins, poeta, artista plástico e ensaísta, exercita-se desde sempre no difícil diálogo entre a impulsão poética, arrebatadora, e a tomada de pulso da matéria, gravitacional — navegação com expectativa de cais. Estreando aqui como autor de peça teatral, suas personagens são três grandes poetas brasileiros que encenam, num palco a um tempo íntimo e aberto, uma ampla interrogação sobre a poesia, a cidade de São Paulo, a vida moderna.

Épocas distintas se verticalizam no presente do nosso século, tornado comum a Álvares de Azevedo (1831-1852), Mário de Andrade (1893-1945) e José Paulo Paes (1926-1998). Contemporâneos todos, quebremos também as paredes dos sonhos e reconheçamos as “tarefas inconclusas” que sempre couberam aos poetas, sobretudo os que fazem crer que a mais alta beleza é indício de ainda mais altas necessidades. Sim, a perspectiva do autor é romântica: o lirismo machucado e reflexivo, os jogos do humor e a acidez da paródia são recursos que, em vez de minarem, acentuam a necessidade de ouvir poetas conversando entre si, unidos não pela morte, mas pela vida nova de um espaço/tempo em que Zé Paulo pode dizer a Álvares: “aqui você é que é novo e eu sou o velho”. Um desafio para ambos (e também para Mário de Andrade, que ao diálogo entre eles vem juntar a companhia de um pesado e misterioso silêncio) é compreender São Paulo, a quarta personagem, cujos espaços se abrem tanto aos dejetos industriais como à mais sofisticada instrumentação tecnológica. Mas a questão de fundo é ponderar a poesia. “Será um exagero dizer que falo em nome de muitos?” — pergunta Zé Paulo ao poeta adolescente.

De fato, o que cabe à poesia em tempos de lirismo acuado nas trincheiras? “Trincheiras são muito parecidas com covas”, amarga Álvares de Azevedo, ao que Zé Paulo rebaterá: “A sua tarefa ficou inconclusa”, acrescentando que também a de Mário de Andrade não se concluiu. Esta peça quer alargar tal questão, não para “concluir a tarefa”, obviamente, mas para avivá-la dentro de nós. É preciso escavar “alguma dor não contaminada”, continua Zé Paulo. Que é uma dor não contaminada senão o ganho de um novo impulso poético, sem os vícios do maneirismo estético ou da deformação ideológica? É aqui que entra o poeta Alberto Martins, arriscando, “buscando a dose certa” (fala de Zé Paulo) para uma química entre limites e aspirações. Seus três personagens dão corpo à Poesia mesma, cuja ressurreição não se opera sem corrosão irônica no território de uma pauliceia exuberante e degradada — por isso mesmo tão incitantemente poética.

Dentro dessa noite paulistana, a um só tempo geográfica e cósmica, as personagens não são fantasmagorias: dão corpo às tensões agudas que entrelaçam sentimento e história, corpo e imaginação. A certa altura Álvares de Azevedo diz a Zé Paulo que desconfia não estar preparado para ouvir a “sinfonia do século” (representada num turbilhão de ruídos urbanos em altíssimo volume). E nós, estamos? Para interrogar o curso da modernidade em perspectiva lírica, bem como para aferir o sentido do poético no tempo atual, Alberto Martins faz caminhar três poetas queridos seus, numa cidade afetivamente sua, enfrentando questões que não são apenas suas.

Ilustração Evandro Carlos Jardim
Ilustração Evandro Carlos Jardim

sobre o autor

Alcides Villaça (Atibaia, 1946), poeta, cursou Letras na Universidade de São Paulo, onde é professor de Literatura Brasileira desde 1973. Publicou os livros de poesia O tempo e outros remorsos (1975) e Viagem de trem (1988) e o estudo de crítica literária Passos de Drummond (2006). Colabora como ensaísta em periódicos nacionais e estrangeiros.