Sobre a obra

O Mirante 9 de Julho faz parte de uma proposta de projeto de revitalização urbanística, ambiental, paisagística e de desenvolvimento sociocultural de uma área de grande importância história e geográfica da cidade de São Paulo. Tal área compreende todo o complexo existente que compõe o Túnel 9 de Julho e seu entorno, composto por uma sala de observação acima do túnel e duas praças com chafarizes, localizadas nas laterais das vias da Avenida 9 de Julho; a obra deste complexo faz parte do Plano de Avenidas de Prestes Maia, e se encontra em estado de abandono há mais de uma década.

Para sua implantação, o projeto de revitalização foi dividido em fases de intervenção. A primeira fase, já concluída, compreende o trabalho de restauro e requalificação da sala de observação acima do túnel, que foi denominada Mirante 9 de Julho. Por se tratar de um local de extremo valor histórico e proteção de patrimônio, a ênfase do projeto foi ressaltar a beleza já existente da edificação sem descaracterizá-la, fazendo intervenções suaves e facilmente removíveis.

Os novos equipamentos foram somente criados para atender a necessidade do novo uso: cozinhas e um bloco de sanitários. Os materiais originais foram restaurados, como: pedras portuguesas, granilite do piso e acabamento da estrutura.

Para se tornar um local mais acessível e seguro, foram retirados os arbustos e criada nova iluminação urbana, tornando o acesso principal (atrás do MASP) mais convidativo e visível.

Para sua ocupação, o uso proposto foi a criação de um café e restaurante no local, alternando seu funcionamento com a organização de eventos culturais. O layout foi definido de modo que fosse o mais flexível possível para atender diferentes eventos, exposições e ocupações, sempre lembrando do caráter público.

Imagem ilustrativa - salão após a obra de revitalização. MM18 Arquitetos
Imagem ilustrativa - salão após a obra de revitalização. MM18 Arquitetos

Os serviços executados relacionados a esta primeira fase foram: limpeza geral, recuperação do substrato original da construção, polimento do piso interno e restauração da pedra portuguesa externa, impermeabilização, poda das árvores e remoção dos arbustos para recuperação do paisagismo original, nova pintura dos gradis, novos sistemas hidráulico e elétrico, nova iluminação em sistema de tubulação aparente, novos banheiros na área sob a escadaria, infraestrutura de apoio para o café nas salas laterais fechadas e reabertura do vão da torre que dá acesso à escada histórica. O desenho das luminárias foi pensado para ressaltar o ritmo dos pilares existentes, que são a característica mais marcante do pavilhão; foi colocado um espelho em cada ponta para criar a sensação de infinito, replicando a imagem dos pilares.

O grande desafio foi unir as necessidades de um grupo público e privado. O projeto faz parte de uma das primeiras experiências de uma série de iniciativas da Prefeitura, que visa a recuperação de espaços abandonados/degradados de São Paulo. Ele se Inclui em um vasto programa de propostas para uso e ocupação de todos aos baixios de viadutos da cidade.

Este desafio foi, em grande parte, pensar juntamente com a Prefeitura e o Grupo Vegas o caráter da ocupação e seus usos, e a influência na vida urbana, impactando na circulação de pessoas e apropriação do espaço que estava completamente privada - já que era ocupada por um grupo restrito de moradores, sempre com a preocupação do espaço conter atividades democráticas.

A próxima fase do projeto de revitalização compreende a recuperação das praças laterais e reativação de seus chafarizes.

Partido arquitetônico

O Projeto Arquitetônico, seguido das intervenções sócio culturais e educacionais, tem por objetivo restaurar a memória do cidadão paulistano ao processo de urbanização sofrido pela cidade de São Paulo, através do ponto de vista do Vale do Saracura, e por fim também contribuir com a revitalização de todo este local de importância histórica. As transformações ocorridas neste vale são bem demarcadas e representativas do que ocorreu na cidade como um todo, no processo que leva a São Paulo do início do século XX, então com cerca de 350.000 habitantes, à posição de megacidade na década de 80, agora com 8.500.000 habitantes.

Meninos banhando-se no chafariz do complexo do túnel, década de 1950.
Meninos banhando-se no chafariz do complexo do túnel, década de 1950.

A área é demarcada pelo cruzamento de dois importantes eixos de transporte, o eixo viário e de metrô da Av. Paulista, e o corredor da Av. 9 de Julho, que liga este vale ao centro antigo, e não por acaso este mesmo vale possui uma série de equipamentos e instituições importantes para a cidade. Mesmo assim o entorno encontra-se em estado de abandono, com praças ocupadas basicamente por moradores de rua, iluminação precária e poucos serviços. Como a Av. 9 de Julho tornou-se uma via expressa, a rápida visualização do local antes de entrar nos túneis não grava imagem na memória de quem ali passa. Também olhando do vão do MASP, o vale desapareceu de trás do Viaduto Prof. Bernardino Tranchesi.

Diagrama de fluxos da região. MM18 Arquitetos
Diagrama de fluxos da região. MM18 Arquitetos

Para que este espaço ressurja na vida da cidade, é necessária uma ação de forte impacto, que desperte comoção pública.

O projeto se divide em 3 áreas principais de atuação, com 3 temas que se complementam:

1. Restauro do salão existente. Mirante Saracura. Conscientização do crescimento descontrolado/vertiginoso de São Paulo

Este espaço situado acima dos túneis, e dez metros abaixo do nível da calçada de acesso, é parte integrante da praça composta pelos paredões, chafarizes e bocas dos túneis.  O uso deste espaço se dará com um café e espaço gastronômico para chefes itinerantes, voltado para reuniões sociais.

2. Restauro das praças dos chafarizes. Consciência do descaso ecológico no desenvolvimento da cidade

Praça e chafariz atualmente, 2015.
Praça e chafariz atualmente, 2015.

O tema Água nunca foi tão discutido como atualmente. É tragicômico uma cidade construída sobre uma série de rios hoje sofrer com a falta d’água, ainda que a questão de seu abastecimento seja um caso à parte. Os chafarizes ali presentes foram construídos pela representatividade das nascentes do ribeirão do Saracura, mas por consequência da ignorância, hoje encontram-se secos; a cidade está cada vez mais árida, não somos mais a terra da garoa. A proposta de requalificação para as Praças dos Chafarizes se baseia na organização de eventos e exibições de projeções de vídeo arte e cinema ao ar livre, e de textos explicativos em suas paredes, tratando do contexto sobre o qual a cidade nasceu e se desenvolveu sobre os rios, como já é sabido através de alguns documentários, como Entre Rios, e O Saracura e os rios "invisíveis" de São Paulo.

Terceira fase ainda a definir.

sobre os autores do projeto

MM18 Arquitetura foi fundado em 2008 pelos arquitetos Mila Strauss e Marcos Paulo Caldeira.

Mila Strauss é formada pela Faculdade de Belas Artes (São Paulo/2002), com máster pela Universidade Politécnica da Catalunha (Barcelona/2003). Trabalhou no escritório de Enric Miralles y Benedeta Tagliabue (Barcelona) e Zvi Hecker (Berlim).

Formado pela FAU Mackenzie (São Paulo/2002), Marcos Paulo Caldeira também cursou a Universidade Politécnica da Catalunha (Barcelona/2003).

ficha técnica

cliente
Consórcio entre Grupo Vegas e Prefeitura Municipal de São Paulo

data do início do projeto
janeiro de 2015

data da Conclusão da Obra
julho de 2015

área construída
180m²

arquitetura, interiores e luminotécnica
MM18 Arquitetura

arquitetos
Marcos Paulo Caldeira e Mila Strauss

colaboradores
Fabiane Sakai, Larissa Burke, Bruna Pires, Thiago Buccieri

construção e instalações
Potentia engenharia

mobiliário
Frank Dezeuxis

consultorias
Neide Senzi (luminotécnica)

serralheria
São Judas

marmoraria
São Matheus

iluminação
Neon 3 Estações 

led
Osvaldo Herrero - Black.out Lighting 

marcenaria
Caio Stil

bancos de concreto
Neorex