O presente artigo pretende observar e pensar cidades. Inicialmente pode causar estranhamento e ao mesmo tempo indignação com tudo aquilo que envolve o cotidiano das pessoas, ações que antes passavam despercebidas começam a trazer interrogações, afinal, muito do que se vê nos centros urbanos é fruto de um mal planejamento, ou ainda pior, a inexistência do mesmo.

Por isso, busca-se analisar, observar e comparar essas situações em cidades. Nota-se principalmente nas grandes cidades forte influência do urbanismo moderno, uma vez que essas são pensadas muito mais para automóveis do que propriamente as pessoas que ali moram e frequentam, no entanto há algumas poucas exceções que seguem os ideais do urbanismo contemporâneo, que visam muito mais as pessoas e sua relação com o meio no qual estão inseridas, como exemplo, Copenhague, na Dinamarca.

Desta maneira, o artigo tem como objetivo compreender a relação entre urbanismo moderno e contemporâneo e como isso impacta diretamente a vida das pessoas. Posto isso, será feita uma pesquisa de cunho bibliográfico, buscando reunir informações e dados a fim de compreender a problemática apresentada. A seleção de leitura proposta será a reflexiva permitindo, assim, avaliar as causas e as consequências da mobilidade urbana nos grandes centros e a visão contemporânea que prioriza as pessoas em relação aos automóveis.

O urbanismo muito mais do que se preocupar em apenas construir cidades, é uma ciência que estuda o espaço e a relação das pessoas com ele, a cidade é o seu principal centro de pesquisa, junto com as conexões criadas nesse ambiente (1).

O urbanismo tem grande importância no planejamento das cidades e como isso interfere diretamente no desenvolvimento humano, no bem-estar das pessoas, na qualidade e na organização dos espaços projetados.

Existem dois urbanismos em divergência, o urbanismo moderno que colocava os automóveis como protagonistas das cidades, a cidade precisaria refletir o seu tempo, o progresso tecnológico e industrial da época.

Em 1933 é criada a Carta de Atenas, documento que define o conceito de urbanismo moderno, apresentando diretrizes para o planejamento urbano. Alguns pontos levantados na Carta se adequam a visão de uma cidade supostamente ideal, são eles: habitação, lazer, trabalho e circulação. As cidades são setorizadas, apresentam baixa densidade, vias largas e uma paisagem marcada por prédios. Um exemplo real do que foi proposto na Carta redigida por Le Corbusier é Brasília, cidade brasileira projetada por Lúcio Costa.

Com isso, a cidade projetada para pessoas, acaba sendo uma divergência do urbanismo moderno, uma vez que o protagonismo das cidades se volta para os automóveis, dando ênfase rodoviarista no desenho urbano gerando desequilíbrios entre pedestres e carros, retirando assim, o espaço urbano de convivência.

Sendo assim, é relevante analisar estudos de casos com cidades que seguiram os moldes do planejamento modernista e cidades que adotaram uma postura diferente. Posto isso, tal problemática pode ocasionar confusão na distribuição e uso do solo, levando a espaços subutilizados e vazios urbanos que causam impactos evidentes na dinâmica urbana (2).

Contudo, a rua que deveria cumprir o papel de encontro e socialização de pessoas, torna-se palco para estacionamentos públicos e privados, aumentando assim a insegurança e os índices de violência, impactando diretamente a vida das pessoas.

Ademais, vale ressaltar alguns exemplos que serão aprofundados posteriormente, Brasília (Brasil), Copenhague (Dinamarca) e a rua 14 de Julho em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), será avaliado como esses planejamentos se organizam e como isso interfere na vivência/conexão das pessoas com espaço.

A cidade de Brasília, construída na década de 1950 é o marco do urbanismo moderno no Brasil, símbolo de uma esperada mudança do país no âmbito econômico e social, o plano piloto foi elaborado pelo arquiteto urbanista Lúcio Costa.

A cidade é muito conhecida por seu formato que muitos dizem “lembrar um avião”, e também por edifícios institucionais importantes, projetados por Oscar Niemeyer.

No entanto, nesta cidade há muito mais do que isso, afinal, ela foi construída e planejada do zero, não existiria ali os mesmos problemas das demais cidades brasileiras, ela seria então uma cidade perfeita, certo? Errado, a verdade é que a escala da cidade é muito grande, e tudo nela acaba afetando diretamente principalmente os moradores.

Seguindo os ideais do urbanismo moderno a cidade tem ênfase nos automóveis, isso é explícito no Eixo Monumental da cidade, quem mais sofre é o pedestre que precisa se locomover de uma região a outra, sendo obrigado a caminhar longas distâncias quase que inevitavelmente.

A cidade foi pensada para ter uma vida vibrante no centro, porém é uma das capitais mais “desérticas” do país, pensada para não haver congestionamentos, tem-se cotidianamente, e ainda muitos locais como bares e restaurantes tem acesso apenas por meio de automóveis, evidenciando que o urbanismo moderno não se atentou a todas as condicionantes que uma cidade necessita.

Desenho esquemático do traçado urbano de Brasília
Desenho esquemático do traçado urbano de Brasília

Em contraponto com o urbanismo moderno, o urbanismo contemporâneo, então, surge como crítica às ideias levantadas no urbanismo moderno, é preciso pensar em cidade para as pessoas, elas devem estar em primeiro lugar, porque isso promove a qualidade de vida urbana e faz as pessoas se sentirem pertencentes ao lugar, se empoderando dos seus direitos. Grandes nomes representam esse urbanismo, Jane Jacobs, urbanista, ativista e autora do livro “Morte e vida das grandes cidades”, Robert Venturi, Aldo Rossi, Robert Goodman e Jan Gehl. Estes autores propõem cidades mais amigáveis, algumas características referentes ao urbanismo contemporâneo, são: a importância com as diferentes complexidades do meio urbano, assim como o estudo das calçadas e dos bairros, para que eles tenham diversos usos, a ocupação das ruas pelas pessoas, a preservação de edificações antigas e a preocupação em manter quadras menores, tudo isso contribui para uma cidade mais consciente dos seus impactos e que busque promover a qualidade dos espaços urbanos (3).

A exemplo de Copenhagen, a cidade “laboratório” de planejamentos urbanos, contêm grande parte das melhorias do urbanismo contemporâneo, uma cidade projetada na escala humana, pensada para pedestres e ciclistas, uma vez que a cultura da bicicleta é bastante forte no centro urbano, como pode ser vista nas imagens abaixo.

A cidade conta com grandes parques e calçadões, proibindo a entrada de veículos, deixando assim, o espaço para a socialização das pessoas e a ativação do centro urbano a qualquer horário do dia, passando a sensação de segurança a quem caminha pelo local (4).

Além do mais, um exemplo dessa dualidade de espaços e “junção” dos métodos adotados pelos dois urbanismos debatidos, tem rua 14 de Julho em Campo Grande, no qual foi proposto um projeto de revitalização da rua, com o objetivo de torná-la uma via compartilhada, evidenciando um equilíbrio entre a relação de carros e pedestres.

Entretanto, ainda tem uma maior preferência aos veículos, uma vez que é uma via compartilhada, na qual poderia ter sido pensada com um olhar para a escala humana, e a ativação da mesma fora do horário comercial promovendo a interação e o convívio da sociedade, gerando aquele sentimento de segurança ao transitar pela via em qualquer horário do dia.

Projeto rua 14 de Julho
Projeto rua 14 de Julho

Portanto, compreender que repensar a escala de planejamento urbano, impacta diretamente nos problemas sociais de uma cidade e no modo em que isso interfere na vida das pessoas que residem nos centros urbanos, na mobilidade, segurança, na conexão das pessoas com a cidade, no sentido de pertencimento ao lugar e em tudo que organiza o espaço e suas relações, torna-se essencial para um bom planejamento urbano.

A produção deste artigo tem como objetivo contribuir para o entendimento de que o planejamento urbano é relevante e determinante na maneira como as pessoas se comportam e interagem com a cidade. Pensando assim, os urbanistas têm uma grande responsabilidade em projetar para as pessoas, elas precisam fazer parte desse processo e compreender o poder transformador que isso pode ter.

Dessa maneira, a pesquisa elaborada busca discutir algumas das problemáticas urbanas e como elas poderiam ser evitadas, além da visão contemporânea a respeito do planejamento das cidades. Como contribuição, espera-se que as abordagens levantadas no presente artigo ampliem os conhecimentos sobre o tema, atente aos profissionais da área e façam as pessoas se questionarem sobre como e para quem o espaço urbano está sendo projetado, com a finalidade de se empoderar sobre seus direitos, o direito à cidade.

notas

1
Saiba tudo sobre Urbanismo e inspire-se com os maiores urbanistas do mundo!. Viva Decora Pro, 21 jun. 2019 <www.vivadecora.com.br/pro/arquitetura/urbanismo/>.

2
BARATA, Aline Fernandes; SANSÃO, Adriana. Urbanismo tático: experiências temporárias na ativação urbana. Rio de Janeiro. Habitar – 3º Seminário Nacional Habitação e desenvolvimento sustentável, Rio de Janeiro, UFRJ, 2016.

3
COSTA, Andréa. O surgimento do urbanismo e as propostas de solução para as cidades <https://docente.ifrn.edu.br/andreacosta/lazer-e-urbanismo/aula-05-a-08-propostas-urbanisticas-do-sec.-xix>.

4
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2011.