Choveu no Caxambu. Choveu também em outros lugares da Cidade, mas a chuva do Caxambu foi além. Além do normal para uma cidade serrana? Não. Acontece de chover no verão em Petrópolis, acontece muito, e todo ano alguém é vítima dessa chuva. A chuva no Caxambu foi além no sentido humano, que transcende e fortalece quem habita o lugar.

Para explicar porque a chuva do Caxambu não foi como uma chuva qualquer é necessário explicar o que acontece regularmente quando chove na serra. É uma condição climática comum em Petrópolis porque a cidade está localizada na Serra do Mar, onde há ocorrência do efeito orográfico. Além disso, acontece em alguns períodos do ano o encontro de duas massas de ar, a Massa Tropical Atlântica e a Massa Polar Antártica, cuja consequência é precipitação.

O que a chuva encontra é um cenário de morros íngremes, pedras afloradas e grandes árvores. Os morros íngremes formam vales, vales encaixados, que conduzem as águas ampliando gradativamente a vazão de seus cursos. A água que não escorre, infiltra. Com isso, o solo fica pesado e, em cima de rochas lisas, escorrega. Carrega não só a terra, mas os fragmentos de pedra e as árvores. E essa lama com pedaços de natureza corre pelos talvegues, drenagens naturais, gerando fluxos de detritos. É comum nos períodos chuvosos visualizar a paisagem de vegetação serrana rasgada pela cor terrosa quando se percorre a estrada Rio – Petrópolis.

Esses movimentos de terra são poderosos, o que há no caminho se perde. São perdidos objetos, casas, animais domésticos, pessoas. A terra deslizada não apenas atinge a moradia, também obstrui caminhos e acessos. E por todo o potencial de perda que a chuva na serra tem, existem protocolos de ação para mitigação de danos e socorro rápido.

Os protocolos envolvem diferentes esferas de governo. Órgãos e Departamentos e Secretarias da Nação, dos Estados e dos Municípios. Antes da chuva, começam algumas ações básicas: Alertas de chuvas fortes, acompanhamento de pluviômetros locais, determinação de rotas de fuga, preparação de abrigos e pontos de apoio, acionamento de sirenes, convocação de pessoal. Mas nem sempre dá tempo. E nem sempre há preparo para realização das ações necessárias em todos os locais onde um movimento de terra pode acontecer. E a chuva encontra a terra, juntas encontram a cidade densa, desigual, não planejada. Desastre.

A baixada fluminense e a Serra do Mar, a partir de uma cumeada do Caxambu
A baixada fluminense e a Serra do Mar, a partir de uma cumeada do Caxambu

Começa a fase pós-chuva: Registro de ocorrências, vistorias, tantas vistorias que é necessário congregar todos aqueles técnicos do município que podem ajudar. Desobstrução de caminhos, socorro aos atingidos, reconstrução de ruas e pontes. Se houve isolamento de um lugar por uma barreira, não chega bombeiro, médico nem defesa civil. Enquanto a rua não é recuperada, não tem carro, mercadoria, transporte que passe. Algumas vezes significa também ficar sem energia e sem água potável.

O poder público tem os protocolos. Para as pessoas que moram pela cidade a situação é outra. Antes da chuva: medo. Durante: coração na mão. Depois: a espera por alguém da prefeitura que há de saber o que fazer. Neste ponto o Caxambu foi além.

O Caxambu é uma localidade com um trecho densamente urbano e outro ruralizado, apesar de bem ocupado. A chuva caiu mesmo, com vontade, no vale rural. Quase todas as famílias plantam alguma coisa, colhem e vendem e se conhecem. Quando a chuva forte veio, não houve tempo pro medo. O coração na mão enquanto fluíam as conversas por mensagem no celular e as ligações, para saber se tudo estava bem com o vizinho que divide o cotidiano. As fotos e vídeos que circulavam enquanto ainda chovia já anunciava que o cotidiano mudaria por um tempo. A plantação, as ferramentas, a renda seriam prejudicada. E piorava. Casas atingidas e um vizinho que não voltaria a ser visto no dia-a-dia. Tristeza.

Mas esse contato próximo, a humanidade na relação, a coesão da comunidade fazem do Caxambu um território que vai além. Vista a demora nos protocolos pós-chuva, pegou a enxada e o trator e se pôs a abrir o caminho, por si. Na união reconstruiu o lugar da vida, assentou os blocos de pedra sobre a lama para passar o caminhão e não deixar morrer a colheita que sobrou inteira. Que identificou as necessidades e buscou respostas junto a quem é pago com seu imposto para trabalhar.

Reconstrução de caminhos pelos moradores do Caxambu após a chuva
Reconstrução de caminhos pelos moradores do Caxambu após a chuva

Os protocolos também foram cumpridos, no prazo permitido pelos recursos disponíveis. Esse prazo comumente origina momentos de ansiedade e falta de assistência. O Caxambu resiliente escapou por pouco desse cenário, escancarou a diferença entre os territórios fortes e os desguarnecidos. Evidenciou a urgência de um trabalho direcionado ao fortalecimento e união das comunidades como ação prioritária de prevenção aos desastres. Já que a chuva e os movimentos de terra são inevitáveis, é necessário saber lidar com eles. Todos devem saber lidar: o poder público e o cidadão. É necessário falar sobre o assunto com frequência, o ano todo, não apenas quando estão na iminência de acontecer. Urge perder o receio da ampla divulgação das cartas e mapas que mostram quais são os territórios mais vulneráveis.

A chuva que caiu no Caxambu foi além. Mostrou a potência que existe quando o individualismo é superado. Ensinou o que é resiliência, para além das ações governamentais. A resiliência que fez diferença mesmo em uma comunidade que desconhecia protocolos e mapeamentos. Em uma cidade como Petrópolis, com desastres históricos e marcantes como os de 1988 e o de 2011, é momento de trabalhar essa resiliência integrada: feita de protocolos de governo e de força comunitária. Afinal, é verão, e a previsão é de chuva forte.

sobre a autora

Layla Chistine Alves Talin é arquiteta e urbanista e mestre pela Universidade Federal de Viçosa – UFV, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Católica de Petrópolis – UCP, atua em planejamento urbano no município de Petrópolis. Foi contraparte do projeto de Gestão Integrada de Desastres Naturais – Gides.