Na continuidade de meu percurso pelos espaços públicos da área central de Presidente Prudente (1), a memória se aviva. O presente se contrapõe ao passado...
Presidente Prudente, com aproximadamente 227 mil habitantes segundo últimos dados do IBGE (2), é polo regional do oeste paulista e diariamente atrai a população de municípios vizinhos por motivos variados: trabalho, educação, saúde, comércio e serviços, lazer etc. O centro histórico da cidade é o destino de grande parte desta população.
Similar ao ocorrido em outras cidades brasileiras, a área central deste município paulista até meados da década de 1960 abrigava habitações da classe média e comércio tradicional; a partir dos anos de 1970 passou por importantes transformações que, ao longo dos anos, impactaram drasticamente seus espaços públicos.
Na atualidade, a cidade possui uma frota de automóveis de aproximadamente 157 mil veículos – 0,7 veículos por pessoa –, IDH 0,86 – indicador considerado alto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD –, e a população predominantemente urbana – taxa de urbanização de 97% (3).
A sociedade prudentina ostenta um estilo de vida moldado por valores das grandes cidades brasileiras: a elite, em grande parte, reside nos condomínios horizontais ou verticais, classes média e baixa em bairros periféricos, onde o custo da terra é mais barato e a distância do cento exprime “tranquilidade”; proliferam conjuntos habitacionais fechados; parte das compras são realizadas nos dois shoppings center da cidade ou nos hipermercados; o lazer ocorre em clubes fechados e o deslocamento é predominantemente por automóveis (4).
O resultado é um centro utilizado intensamente de dia por um misto de população residente e que trabalha na área central, e moradores de municípios vizinhos que vêm à Presidente Prudente para a realização de atividades ausentes em suas cidades de origem. À noite, o esvaziamento e a ocupação das ruas por transeuntes retratam um cenário de insegurança.
O conhecido quadrilátero da área central, cujo parcelamento retilíneo tem origem na histórica Vila Goulart fundada em 1917, é formado pelas avenidas Cel José Soares Marcondes, Manoel Goulart, Washington Luís e Brasil. Emoldurando esta região, estão três importantes praças que originalmente compunham um sistema de espaços livres de grande vitalidade para a cidade: Praça Monsenhor Sarrion (praça da Catedral), Praça 9 de Julho e Praça da Bandeira.
As praças da Catedral e 9 de Julho podem ser consideradas a “porta de entrada” do centro da cidade. Dali duas importantes ruas comerciais, R. Tenente Nicolau Mafei e R. Barão do Rio Brancos (a primeira transformada em calçadão nos anos de 1970), conectam as duas avenidas de ligação leste – oeste da cidade e de conexão com a rodovia Raposo Tavares: as avenidas Coronel José Soares Marcondes e Brasil. A Praça da Bandeira encontra-se no fim das duas ruas comerciais, na avenida Brasil, junto à estação ferroviária, delimitando os “fundos” do centro, junto à via férrea.
A Praça 9 de Julho, criada nos anos de 1930, por muitas décadas foi considerada o principal espaço público da cidade, o local do encontro e do convívio social. Nos anos de 1940, com a construção da catedral, do outro lado da avenida, passou a compor com a praça Monsenhor Sarrion um conjunto arquitetônico-paisagístico único na cidade. Antigos residentes recordam que até os idos dos anos de 1960 era nesta praça e nas ruas próximas que ocorria o tão saudoso “footing” , uma espécie de “desfile” de homens e mulheres com a finalidade da “paquera”. O antigo coreto, demolido nos anos de 1950, para dar lugar a fonte, abrigava apresentações musicais (5); a pipoca, e algodão doce era diversão favorita aos fins de semana. A fonte iluminada jorrava suas águas que “bailavam” ao som da música do alto falante. Era o ápice de um tempo em que esta praça representava o local do encontro de diversas gerações e classes sociais.
Na atualidade, as duas praças não são mais as mesmas. A Praça da Catedral, como já dito em ensaio anterior, se transformou em um estacionamento de autos se desconectando da praça 09 de Julho. O espaço público apartado da igreja, durante a semana é alugado para o estacionamento. Já a Praça 09 de Julho sofreu diversas reformas, e recentemente, em 2013, foi objeto de um projeto de revitalização que buscaram requalificá-la. Parte de suas árvores e coqueiros foram mantidas, assim como o carrinho de pipoca. A fonte ainda jorra suas águas, mas não exprime a mesma graça e música da minha memória. A despeito de um intenso uso que a praça ainda tem, observa-se que a degradação dos equipamentos, mobiliários e jardins, mesmo que modernizados, é visível.
A praça da Bandeira tem relação direta com a história da origem da cidade. Foi construída em 1925 junto à esplanada da Estação Ferroviária de Presidente Prudente, antigo marco zero (6). Por muitos anos foi considerada o local de encontro da sociedade prudentina. Um local onde era possível aguardar a chegada do trem, as carruagens com malas para viagens, presenciar encontros políticos, os namoros, as famílias passeando por seus jardins, o som da banda no coreto ou mesmo sentar embaixo das copas de suas imensas árvores.
Com a expansão do centro e criação da Praça 09 de Julho e da Praça Monsenhor Sarrion, a partir dos anos de 1950, esta a praça teve seu papel reduzido. Em meados dos anos de 1980, a construção do viaduto Comendador Tannel Abbud, ligando os dois lados da linha férrea, cobriu parte da praça e impactou diretamente este histórico espaço público da cidade. Com o passar dos anos, a praça tornou-se local do comércio informal, durante o dia e, de prostituição, no período noturno.
Nos anos 2000, na tentativa de revitalizar e regularizar o comércio informal da Praça da Bandeira, o poder público transformou parte de sua área em shopping popular aberto. Foram derrubadas árvores para colocação de boxes comerciais. O local ficou conhecido como “camelódromo” e passou a atrair inúmeros consumidores ávidos pelas novidades do comércio popular, principalmente eletrônicos “ importados”. Com o passar do tempo, o número de camelos ilegais ultrapassou os boxes regulares, instalando uma situação de conflito. Recentemente foi implementada uma reforma parcial na Praça pelo poder público municipal, com a modernização de sua infraestrutura, especialmente da iluminação, reforma de pisos e mobiliário, manutenção de brinquedos etc. A prefeitura anunciou que esta seria uma primeira etapa de um projeto mais amplo voltado para a revitalização do quadrilátero central da cidade, para a conexão dos dois lados da via férrea e interligação com outros equipamentos culturais da cidade, como o Centro Cultural Matarazzo, na zona leste (7). Oxalá que isso de fato ocorra e que o projeto seja de fato inovador e não uma mera reforma.
O fato é que a contínua descaracterização dos espaços públicos da área central de Presidente Prudente, além de contribuir para uma cidade com pouca e esparsa arborização, a despeito de seu clima quente, expressa um misto de decadência e “suposta” vitalidade que convivem lado a lado. No calçadão, de dia diversas lojas populares atraem um intenso movimento de pedestres. O comércio e os serviços populares expressam o dinamismo do centro regional. Mas as moradias e lojas tradicionais já não estão mais presentes. No período noturno não há o que fazer na área central. Suas praças encontram-se em processo de degradação visível. Apesar das recentes obras realizadas pelo poder público municipal, voltadas para a revitalização destes espaços públicos, é evidente que seus efeitos são mínimos e que os projetos carecem de um olhar atento e integrado voltado para a valorização da história e do patrimônio sociocultural e ambiental que estes representam.
Por fim, as transformações observadas na área central de Presidente Prudente resultam de um modelo de desenvolvimento urbano que, em geral, desconsidera a importância vital de seus espaços públicos como espaços da memória e local de diversidade sociocultural da cidade.
notas
1
Primeiro artigo sobre a cidade de Presidente Prudente: ALVIM, Angélica Benatti. Saudades de uma praça que não existe mais. Minha Cidade, São Paulo, ano 19, n. 221.02, Vitruvius, dez. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/19.221/7204>.
2
IBGE. Panorama Presidente Prudente. Brasília, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2018 <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/presidente-prudente/panorama>.
3
Segundo o verbete “Presidente Prudente” da Wikipedia <https://pt.wikipedia.org/wiki/Presidente_Prudente>. Acesso em 29 dezembro 2018.
4
GÓES, Eda Maria; BELTRÃO SPOSITO, Maria Encarnação. Práticas espaciais, cotidiano e espaço público: o consumo como eixo da análise do calçadão de Presidente Prudente-SP. Revista da Anpege, [S.l.], v. 12, n. 19, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, jun. 2017, p. 39-65 <http://ojs.ufgd.edu.br/index.php/anpege/article/view/6373>. Acesso em: 30 dez. 2018.
5
BISPO, Thaís Mitie Shiguematsu. As praças centrais de Presidente Prudente-SP: avaliação do caráter como subsídio para intervenções projetuais. TCC em Arquitetura e Urbanismo. Orientador Alex Assunção Lamounier. Presidente Prudente, Faculdade de Ciências e Tecnologia Unesp, 2011 <https://repositorio.unesp.br/handle/11449/118325>.
6
Idem, ibidem.
7
REDAÇÃO. Presidente Prudente. Prefeitura reinaugura metade da Praça da Bandeira. Portal Prudentino. 13 dez. 2018 <https://www.portalprudentino.com.br>. Acesso em: 30 dez. 2018
sobre a autora
Angélica Aparecida Tanus Benatti Alvim é arquiteta e urbanista, mestre e doutora pela Universidade de São Paulo – FAU/USP (1996, 2003) e professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie desde 1991, onde atualmente exerce o cargo de diretora (2016-2019).