Comumente, autores conceituam a qualidade de um projeto arquitetônico de modo parcial e equivocado, quando em sua plenitude deve abranger uma compreensão desde os estudos preliminares até o uso dos edifícios. Segundo Hugo Prata, trata-se de

“uma obra construída pelo homem com intuito de abrigar pessoas ou coisas, com conforto e segurança, apetrechados com todo o equipamento e instalações necessárias para o desempenho de sua função, e que inclui, ainda, as instalações e construções exteriores. Tudo isso é que constitui o edifício, esse conjunto é que tem que ser mantido operacional e em boas condições ao longo de toda a sua vida útil” (1).

Em Habitação de Interesse Social – HIS as problemáticas geradas pela falta da qualidade do projeto são perceptíveis após a utilização do edifício, visto que é nessa fase que os moradores se deparam e convivem com as falhas projetais não resolvidas na fase de concepção.

Segundo Joseph Moses Juran e Frank Gryna, o conceito de qualidade depende de dois fatores: “A qualidade consiste nas características do produto que vai ao encontro das necessidades dos clientes e dessa forma proporcionam a satisfação em relação ao produto e o segundo é a ausência de falhas” (2).

Por sua vez, Silvio Burrattino Melhado entende que os projetos de empreendimentos estão divididos em quatro fases: A primeira é “a montagem da operação”, onde se concentram “os estudos preliminares, o programa de necessidades dos usuários, assim como as viabilidades que envolvem a execução/construção”; A segunda fase é a elaboração do projeto. Nesta fase o autor observa que devem ser atendidos os fatores levantados nos “estudos preliminares e no programa de necessidades”; A terceira fase é “a construção” tendo como base “os projetos e definições preliminares”; e por último, “a gestão do edifício”, esta fase compreende a “utilização, operação e a manutenção de todos os sistemas e componentes do edifício” (3).

Por fim, Álvaro Garcia Meseguer, destaca que a qualidade dos edifícios de habitação deve ser garantida durante todo o processo “projeto/construção". O autor afirma que o sistema, para garantir qualidade em todo o processo, deve ser suficientemente capaz de esclarecer cinco pontos específicos, que estão diretamente relacionadas à definição, produção, comprovação, demonstração e documentação. Define ainda, que estas estratégias devem estar garantidas em quase todas as etapas do planejamento, projeto, materiais e execução, assim como no uso e na manutenção do edifício. O autor destaca outros fatores que devem ser avaliados: os fatores técnicos, que envolvem cada etapa de projeto, construção, uso e manutenção; e os fatores humanos, medidas de caráter pessoal de organização e de gestão do processo de construção (4).

A busca pela qualidade não é uma tarefa fácil, pois demanda uma compreensão técnica e tecnológica de todos os envolvidos, o que torna a compreensão do termo “qualidade” um objetivo muito abrangente, com diferentes critérios para cada um dos envolvidos no processo. Segundo a American Society of Civil Engineers, os agentes principais do segmento da arquitetura e construção de um empreendimento são: os empreendedores, os arquitetos e os construtores (5).

Entende-se, ainda, que cada um tem traçado suas ações em busca da qualidade nas respectivas fases que envolvem o processo. Embora cada um tenha necessidades, responsabilidades e expectativas diferentes, essas acabam contribuindo para o mesmo objetivo, de modo que quando cada um dos agentes alcança suas necessidades e expectativas, sendo elas alinhadas com o todo, contribui para atender as demandas e exigências de qualidade preestabelecidas.

Segundo Yngve Hammarlund e Per-Erik Josephson, durante as etapas de projeto, onde ainda os custos referentes ao processo são baixos, há uma probabilidade maior de reduzir eventuais falhas na qualidade da concepção e produção do edifício (6).

A qualidade de um produto ou sistema é diretamente associada ao custo deste produto. Quando o assunto é HIS muitos autores observam que a preocupação é de atender um maior número de unidades habitacionais, sem que a qualidade seja efetivamente atendida. Josaphat Lopes Baía e Silvio Burrattino Melhado observam que a busca da qualidade deve ser atendida em todas as fases, “planejamento, projeto, construção e uso desses edifícios” (7).

Gráfico da projeção do Custo relativo da intervenção X período de tempo para intervenção
Gráfico da projeção do Custo relativo da intervenção X período de tempo para intervenção

A qualidade desses projetos geralmente é comprometida por falta de integração entre as fases que envolvem o empreendimento. Em sua tese de doutorado, Silvio Burrattino Melhado afirma que existem falhas entre a fase de desenvolvimento de projeto e outras fases que compreendem o mesmo. Afirma ainda, que para se chegar a um patamar desejável de qualidade nesses projetos e na construção do edifício, deve-se criar subsistemas de gestão/controle para cada fase específica, de forma que seja possível avaliar seu caráter sistêmico, além de resolver as interfaces das fases do processo (8).

Adotando ações de planejamento, desenvolvimento e construção, espera-se alcançar uma margem de qualidade satisfatória no plano geral. Isso facilita e viabiliza uma compreensão mais clara, que auxilia os arquitetos e projetistas na concepção e desenvolvimento de um produto/edifício, projetando o uso e a manutenção do mesmo para a fase mais longa do processo.

Uma adoção de critérios de qualidade nas diversas fases de elaboração do projeto, voltado ao uso e a manutenção desses empreendimentos destinados à HIS, viabiliza uma manutenção menos onerosa para esse público, de forma que a qualidade passa a ser uma demonstração de respeito com esses usuários.

De acordo com Josaphat Lopes Baía e Silvio Burrattino Melhado, a qualidade do processo de projeção de um edifício é baixa, devido à falta de integração entre as fases. Nem sempre o processo é fruto de uma ação sistêmica, onde as necessidades e exigências de diferentes demandas devem ser levadas em consideração até o fim de todo o processo (9).

Projeto e construção – rebatimentos na qualidade da habitação

O presente texto não tem o objetivo de retratar as ações de cada etapa do projeto de habitação social, mas discutir quais fatores impactam a qualidade do edifício, o ciclo de vida e a manutenção.

A falta de qualidade da produção de HIS nos grandes conjuntos habitacionais gera outros problemas como a falta de conforto, custo de manutenção ao longo da vida útil, as inadimplências dos custos condominiais etc., de forma que esses problemas poderiam ser minimizados na etapa de projeto.

A equipe de Doris Kowaltowoski observa que o projeto deve integrar as problemáticas atuais da habitação de interesse social, os autores destacam oito parâmetros de relevância para o projeto de arquitetura, sendo eles: humanos, ambientais, culturais, tecnológicos, temporais, econômicos, estéticos e segurança (10).

Além destes fatores, João Sette Whitaker Ferreira analisa que a qualidade dos edifícios está intrinsecamente relacionada às soluções tecnológicas empregadas na construção. Neste aspecto deve-se aplicar condicionantes “as bioclimáticas garantindo o conforto ambiental, o desempenho, a durabilidade com o baixo custo de manutenção” (11). Estas técnicas integradas à solução de projeto minimiza a manutenção dos conjuntos habitacionais, de modo que não onere ainda mais condições financeiras de populações carentes. Observa-se que nos grandes conjuntos habitacionais, muitas vezes, apenas uma pequena parcela dos moradores participa das despesas condominiais.

Na busca pela qualidade ambiental o projeto deve garantir o conforto térmico, acústico, iluminação, ventilação, priorizando tecnologias passivas. João Whitaker destaca que o “projeto deve avaliar as questões de implantação e aberturas para valorizar a ventilação cruzada e iluminação natural de acordo com as recomendações das normas de conforto” (12), a NBR 15220, de 2005.

As questões espaciais do projeto são mais complexas pois dependem da função, da tipologia e da forma e estas estão diretamente associadas às necessidades e cultura dos usuários. Doris Kowaltowoski e equipe destacam que a qualidade dos espaços deve ser avaliada segundo a funcionalidade, ou seja, o arranjo, a quantidade e como o edifício foi projetado para ser utilizado.

Por sua vez, João Whitaker discute outros parâmetros na análise do espaço, como a distribuição das unidades no pavimento tipo, a circulação e acessos. O projeto deve garantir a privacidade dos usuários e a facilidades de acesso. O autor destaca que outro aspecto que determina a qualidade do espaço é a flexibilização, que representa a possível alteração interna das unidades em função das necessidades de seus moradores. Ele observa que um projeto que permita a variação do arranjo dos cômodos é mais apropriado, pois atende a diferentes perfis familiares, bem como uma possível mudança de perfil ao longo da vida de seus moradores.

O projeto dos conjuntos habitacionais deve considerar a existência de equipamentos de uso comum e espaços públicos projetados para a qualidade de vida no condomínio, e avaliar se estes equipamentos estão acessíveis na região.

Whitaker observa ainda que o conjunto habitacional deve estar integrado a rede de transporte público. Nas grandes metrópoles estes conjuntos devem estar no mínimo a um quilômetro de distância de um ponto de ônibus. É importante que equipamentos de saúde, escolas, praças, entre outros sejam próximos dos conjuntos habitacionais.

Abordado os pontos acima, buscasse constantemente uma maior compreensão das necessidades dos usuários de habitação social e com isso, adequar as melhores práticas ao projeto com o intuito de se obter um edifício de qualidade elevada no que tange o conceito projetual e a construção da moradia.

notas

1
PRATA, Hugo. Manual de manutenção de edifícios: gestão da manutenção do edifício. São Paulo, Publindústria, 2012, p. 23.

2
JURAN, Joseph Moses; GRYNA, Frank M. Controle da qualidade handbook: conceitos, políticas e filosofia da qualidade. 4a edição, volume 1. São Paulo, Makron Books, 1991.

3
MELHADO, Silvio Burrattino. Gestão, cooperação e integração para um novo modelo voltado à qualidade do processo de projeto na construção de edifícios. Tese de livre-docência. São Paulo, Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, 2001; MELHADO, Silvio Burrattino. Qualidade do projeto na construção de edifícios. Tese de doutorado. São Paulo, Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, 1994, p. 102-299.

4
MESEGUER, Álvaro García. Controle e garantia da qualidade na construção. São Paulo, Sinduscon, 1991, p. 68-73.

5
AMERICAN SOCIETY OF CIVIL ENGINEERS. Quality in the constructed Project: a guide for owners, designers and constructors. Volume 2. Reston, American Society of Civil Engineers, 2000.

6
HAMMARLUND, Yngve; JOSEPHSON, Per-Erik. Sources of quality failures in building. In: BELELGA, A.; BRANDON, P. Management, Quality and Economics in Building. Symposium on Management, Quality and Economics in Housing and other building sectors. Londres, p. 670-681.

7
BAÍA, Josaphat Lopes; MELHADO, Silvio Burrattino. Qualidade no processo de projeto: aplicação ao caso dos escritórios de arquitetura. Anais do Seminário Internacional NUTAU 1998: Tecnologias para o século XXI. São Paulo, FAU USP, 1998, p. 59-60.

8
MELHADO, Silvio Burrattino. Qualidade do projeto na construção de edifícios (op. cit.).

9
BAÍA, Josaphat Lopes; MELHADO, Silvio Burrattino. Op. cit.

10
KOWALTOWOSKI, Doris; GRANJA, Ariovaldo Denis; MOREIRA, Daniel de Carvalho; SILVA, Vanessa Gomes da; MIKAMI, Silvia. Métodos e Instrumentos de avaliação de projetos destinados à habitação de interesse Social. In: VILLA, Simone Barbosa; ORNSTEIN, Sheila Walbe. Qualidade ambiental na habitação-avaliação pós-ocupação. São Paulo, Oficina de Textos, 2013.

11
FERREIRA, João Sette Whitaker. Produzir casas ou construir cidades? Desafios para um novo Brasil urbano – parâmetros de qualidade para a implementação de projetos habitacionais e urbanos. Volume 1. São Paulo, LabHab/Fupam, 2012. Disponível em <www.fau.usp.br/depprojeto/labhab/biblioteca/textos/ferreira_2012_produzirhab_cidades.pdf>.

12
Idem, ibidem.

sobre os autores

Luiz Fernando de Azevedo Silva é arquiteto e urbanista, pós-graduado em negócios do mercado imobiliário (Real Estate) pela Universidade de São Paulo (USP), mestre e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela FAU Mackenzie, desenvolve pesquisas acadêmicas na área de qualidade do projeto, tecnologia da construção, manutenção, uso e operação do edifício, é atuante do mercado imobiliário nas áreas de incorporação, construção, expansão e manutenção de edifícios.

Matheus Vieira da Silva é graduando do curso de Publicidade, Propaganda e Marketing da Universidade Presbiteriana Mackenzie e graduando do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Nove de Julho, participa de pesquisas acadêmicas voltadas ao marketing comportamental e tecnologia da construção, é estagiário da área de marketing em empresa do seguimento industrial metalúrgico que atende o mercado da construção civil.

legendas

01. Conjunto Habitacional União da Juta, São Mateus, São Paulo, 1993, projeto da Usina – Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado
Foto divulgação
Acervo Usina CTAH. São Paulo-SP. 2006

2
Gráfico da projeção do Custo relativo da intervenção X período de tempo para intervenção
SITTER, W. R. De Jr . Costs of Service Life Optimization, the Law of Five. CEB- RILEM. International Workshop on Durability of Concrete Structures, CEB Bulletin d’Information.  n 152. Copenhagen, 1984.