Contemporaneidade
Conforme Diane Ghirardo, a contemporaneidade teve como um de seus princípios ressaltar as características locais que haviam sido deixadas de lado em nome da racionalização, da produção em série e da universalização proposta pelo movimento moderno (1).
No entanto, a despeito dessa universalização e da padronização propostas pelo movimento moderno, vemos na obra de Rino Levi grande influência das características do racionalismo italiano que, tal como Marcello Piacentini defendeu em 1930, deveria “admitir o quanto há de universal, de correspondente à civilização contemporânea nos movimentos artísticos europeus, inserindo-lhes nossas peculiares características e tendo presente nossas exigências especiais de clima” (2).
Conforme definição dada por Diane Ghirardo – e ainda o significado proposto pelo Dicionário Aurélio (3) onde contemporâneo significa “quem ou o que é do tempo atual” –, podemos observar que o projeto de Rino Levi para o Instituto Superior de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, de 1940, possui características contemporâneas.
Formação do arquiteto
“Enquanto as forças da modernização do século XX tendiam a obscurecer tendências locais, regionais e étnicas, o pós-modernismo concentra-se precisamente nessas diferenças e traz para o primeiro plano o que fora marginalizado pelas culturas dominantes” (4).
Filho de pais italianos, Rino Levi nasceu em São Paulo em 1901 e faleceu em 1965. Em 1921 ingressou na Escola Preparatória e de Aplicação para os Arquitetos Civis em Milão onde cursou três anos e, em 1924, transferiu-se para a Escola Superior de Roma. Escola essa que tinha como foco o conhecimento técnico e artístico na formação de arquitetos capazes de garantir a modernização das cidades, superando o então conservadorismo de Milão.
Em Roma, Rino Levi toma conhecimento dos precursores do movimento moderno mundial, Le Corbusier, Mies Van Der Rohe e Walter Gropius e, antes mesmo do término de seus estudos, em 1925, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um texto de Levi, “Arquitetura e estética das cidades” (5), onde são colocados os princípios do modernismo e ainda a relação estreita entre arquitetura e o urbanismo, uma das principiais características italianas que nortearam sua atuação profissional.
Vemos já nessa publicação a influência do racionalismo de Marcello Piancetini, que propunha “admitir o quanto há de universal, de correspondente à civilização contemporânea nos movimentos artísticos europeus, inserindo-lhes nossas peculiares características e tendo presente nossas exigências especiais de clima” (6).
A atuação profissional de Rino Levi se dá a partir de 1926 e, em 1929, a visita à casa de Warchavchik teve grande influência nos projetos que o arquiteto desenvolveu a partir de então, afirmando seus conceitos de formação e engajando-o na modernização da cidade de São Paulo que, na época, passava por um intenso crescimento horizontal e vertical. Crescimento este que enfatizou ao arquiteto a necessidade de propostas urbanísticas que ordenassem a expansão da cidade, discussão muito presente também na arquitetura italiana daquele tempo.
Seu escritório atuou em diversos seguimentos incluindo o residencial, educacional, hospitalar e de edifícios para teatros e ou cinemas, e em todos, defendeu o papel do arquiteto como detentor da técnica construtiva na solução dos programas propostos. Sua obra foi reconhecida não só no Brasil como também na Europa e em vários países da América Latina, onde especialmente participou de congressos e desenvolveu diversos projetos.
Segue abaixo a linha do tempo resumida com as principais atuações e fatos da época:
Instituto Sedes Sapientiae
O projeto é composto por três volumes interligados externamente por uma marquise, e que propicia acesso independente aos distintos usos das edificações: residência para freiras, auditório e instalações para ensino superior (salas de aula, biblioteca e áreas administrativas).
A partir da década de 1940, especificadamente no projeto para o Instituto Sedes Sapientiae, Rino Levi adota o pátio como elemento organizador dos volumes em sua arquitetura (tipologia do pátio mediterrâneo como área central de convivência) e o racionalismo na utilização de volumes geométricos definidos e com proporções clássicas, ausência de ornamentos, contraste entre a profundidade das aberturas e das vedações planas e ainda as discretas explorações estruturais.
O projeto conta com três volumes dispostos ao redor de um pátio central. Os volumes são interligados por uma marquise ondulada em concreto armado que marca o acesso principal às edificações. Vemos inclusive algumas características similares a esta no projeto desenvolvido por Danielle Calabi em 1946 para uma residência em São Paulo, no entanto, nessa o pátio seco similar ao de Le Corbusier se distancia do pátio de Rino Levi, que utiliza nele a exuberante vegetação nativa.
O volume frontal à esquerda do acesso principal atende aos dormitórios das freiras e está propositalmente voltado para a face mais ensolarada, enquanto que o volume posterior, que abriga as salas de aula, possui fachada transparente, mas com a insolação controlada pelo elemento de vedação.
O auditório, locado no prédio 2, merece atenção especial na medida em que segue a pesquisa aplicada pelo arquiteto nos projetos de cinemas e casas de teatro por ele desenvolvidos. Pesquisador dos cálculos de acústica, Levi controla na sala a reverberação do som adotando a forma paraboloide nas paredes e teto. Vale ressaltar que o arquiteto é autor de outros cinemas e teatros em São Paulo, a saber: Ufa-Palace (1936), Universo (1938), Ipiranga (1941) e o Teatro Cultura Artística (1943).
Seguem abaixo as plantas e um corte do projeto.
Alguns aspectos da obra merecem especial atenção na medida em que inovaram e trouxeram à obra um caráter moderno com forte presença em grande parte dos projetos do arquiteto.
Podemos iniciar citando a marquise que cobre os corredores de circulação externos e que, apesar da referência clássica, possui características modernas no emprego do concreto armado que possibilitou a inversão da posição clássica dos arcos em sua ondulação.
Outra questão relevante foi a escassez de materiais que, por conta da II Guerra Mundial em curso na época, levou Rino Levi a adotar algumas soluções estruturais e de fechamento utilizando os material e técnicas disponíveis. Nesse sentido, o fechamento da fachada plana com elementos ortogonais em concreto e vidro foi uma das soluções adotadas para a transparência proposta. Esse elemento de vedação é também considerado por Renato Anelli (7) como um dos precursores do quebra-sol adotado em suas obras posteriores.
Ao contrário dos projetos anteriores, a apresentação da cobertura composta por telhas de barro sem o uso de platibanda revela a intenção de não mais escondê-la. No entanto, o beiral cuidadosamente inclinado e que desempenha também a função da calha, torna a cobertura inclinada despercebida ao olhar dos usuários.
Incluímos nos itens relevantes a adequação da arquitetura ao clima que, além da orientação adequada das edificações conforme o uso proposto, se utiliza dos elementos de vedação como controle da insolação e da ventilação permanente nos ambientes.
Conclusão
Utilizando as análises propostas, podemos concluir que a obra de Rino Levi para o Instituto Sedes Sapientiae é uma referência de arquitetura contemporânea pelo seu caráter inovador e de afirmação do que podemos chamar de arquitetura brasileira.
Nela, reconhecemos as palavras de Rino Levi publicadas no jornal O Estado de S. Paulo em 1925, antes mesmo da conclusão de sua formação, quando afirmou que deveríamos buscar no exterior os avanços da arquitetura, mas que esta deveria refletir a originalidade e a cultura das nossas cidades. Essa diretriz trouxe à obra de Rino Levi destaque no cenário da arquitetura brasileira onde podemos reconhecer autenticidade, características locais e a constante preocupação com o desenvolvimento do país.
notas
1
GHIRARDO, Diane. Arquitetura contemporânea, Uma história concisa. São Paulo, Martins Fontes, 2002.
2
PIACENTINI, Marcello (1930). Architettura d’oggi. Apud ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi, arquitetura e cidade. São Paulo, Romano Guerra, 2001.
3
Dicionário Aurélio (on line) <https://www.dicionariodoaurelio.com>.
4
GHIRARDO, Diane. Op. cit., p. 2.
5
LEVI, Rino. Arquitetura e estética das cidades. O Estado de S. Paulo , São Paulo, 15 out. 1925.
6
PIACENTINI, Marcello. Op. cit.
7
ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Op. cit.
sobre a autora
Ana Maria Eder Lanzi é arquiteta (2000) e mestranda pela FAU Mackenzie. Atua como arquiteta na Fundação São Paulo, mantenedora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e responde pela infraestrutura da instituição.