A participação de instituições religiosas na realização de mutirões para promover ações urbanas e habitacionais não é um tema novo. Como exemplo podemos citar a presença marcante da Igreja Católica, durante a década de 1950, na cidade do Rio de janeiro. As ações da referida instituição visavam integrar a população excluída à vida urbana e nacional. Atualmente, existe uma instituição religiosa não muito divulgada na mídia nacional, denominada de Missão ALEF (1), mas que vem procurando desenvolver projetos que permitam promover a solidariedade e o desenvolvimento de ações comunitárias.
Certamente que o estímulo a cultura da solidariedade em tempos de crise econômicas, restrições de políticas sociais e expansão do neoliberalismo urbano, em detrimento do individualismo de mercado, é algo imprescindível. O mutirão, neste contexto, é uma oportunidade de trabalho em conjunto por um objetivo comum.
Convidada para participar dos cursos promovidos pela Missão ALEF, denominado de “Ação e Mudança: quando o movimento transforma”, realizado na Igreja Assembleia de Deus Ministério Internacional “PAZ e VIDA”, em abril de 2017, tive a oportunidade de presenciar a importância e a força da construção de um processo participativo na luta pelo direito à cidade. Como atividade prática final, o curso propôs aos participantes desenvolver uma ação social numa comunidade carente. No entanto, o desafio era realizar o trabalho em, no máximo três horas, com apenas R$ 20,00. Os demais recursos deveriam ser obtidos na própria comunidade.
O meu grupo composto por aproximadamente quinze pessoas foram encarregados de realizar a limpeza na Comunidade Alto da Torre. O plano Diretor de Natal (Lei no 082/2007) (2) considera esta comunidade como Área Especial de Interesse Social. Ao chegarmos na comunidade, escolhemos limpar o campo de futebol e a quadra esportiva, as quais estavam deterioradas e cobertas pelo capim. Posteriormente, em entrevista a uma moradora, ela nos informou que morava há 23 anos naquele local e nunca havia presenciado nada semelhante. De fato, já haviam chamado as autoridades locais, mas nunca ninguém se interessou em fazer a limpeza local. Outra moradora informou que aquele espaço público era subutilizado, pois algumas crianças já haviam se ferido na quadra, dado a quantidade de buracos existentes.
Assim, após as três horas estipuladas, o trabalho foi feito com a ajuda de alguns poucos moradores, os quais doaram materiais de limpeza e lanches. Além disso, durante este tempo também houve a realização de ações sociais como: brincadeiras para crianças e verificação de pressão arterial. Tudo feito pelos participantes do grupo. Os moradores, segundo seus relatos, estavam admirados e incrédulos, pois não acreditavam que aquela limpeza estava sendo realizada por pessoas que não eram daquela comunidade, não faziam parte do conselho comunitário e nem eram funcionários da prefeitura.
O que mais me impressionou foi a mudança de atitude dos moradores após a realização do projeto. Os moradores perceberam que não precisavam esperar mais 23 anos e nem pela boa vontade do poder público, com seus projetos e recursos financeiros, para mudar a sua história. A comunidade, antes desmotivada, se encheu de novas expectativas. Sendo assim, no final de semana seguinte, eles mesmos decidiram finalizar o trabalho iniciado pela nossa equipe. Convidaram mais moradores da comunidade e promoveram uma feijoada para acabar o trabalho de limpeza que começamos.
Com esta experiência, percebi a força que um tem um pequeno projeto de ação comunitária para a construção coletiva da cidade. A semente que foi plantada revelou-se eficaz. Certamente que o projeto pode e deve ser seguido pelas demais comunidades que sofrem com o processo de exclusão social e abandono do poder público, pois revelou-se um instrumento capaz de promover a conscientização e a mudança de atitude dos moradores do Alto da Torre com relação ao seu habitat.
O anseio daquela comunidade por um espaço público de lazer e atividades esportivas limpo e utilizável foi realizado, num curto espaço de tempo e com recursos que existiam na própria comunidade. Agora o Alto da Torre conta com uma área de lazer e recreação, fruto de seu próprio esforço e determinação. A comunidade decidiu manter o local sempre limpo. Mas não só isso, além da limpeza da quadra, planejam arborizar e pintar o local alvo da intervenção.
notas
1
MISSÃO ALEF. Missão Integral. Disponível em <www.missaoalef.org/missao-integral>.
2
NATAL. Plano Diretor de Natal. Lei Complementar no 082, de 21 de junho de 2007. Disponível em <www.natal.rn.gov.br/_anexos/publicacao/dom/dom_20070623_especial.pdf>.
sobre a autora
Simone da Silva Costa é graduada em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mestrado em Economia do Trabalho pela Universidade Federal da Paraíba. Atualmente é doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.