Com base em uma atividade acadêmica da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo que visava apresentar regiões com significância histórica e arquitetônica para os estudantes ingressantes nesse curso – evento chamado de “Gincana dos Bixos” – um grupo de alunos responsáveis pela organização do mesmo em 2005 decidiu se organizar para transformar esse evento informal em uma pesquisa, com o intuito de publicá-la e servir como um manual introdutório da própria cidade ao acadêmico recém ingresso.
Esse texto produzido em conjunto teve êxito em uma publicação, patrocinada por um banco privado em 2005 e até hoje essa publicação orbita no Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie como referência para a produção do evento.
Mais de uma década depois, dois de seus antigos organizadores desse evento decidiram se reencontrar para reescrever esse curto guia, mas não só para a região central da cidade, mas em outras regiões importantes nessa cidade e, ainda, com um comprometimento acadêmico mais rigoroso, uma pesquisa mais aprofundada e com ilustrações aquareladas dos edifícios desenvolvidas por um dos autores, a arquiteta Fernanda Grimberg Vaz de Campos.
O percurso sugerido aqui inicia-se na estação Tiradentes do Metrô na Linha Azul, saída B pela Praça Cel. Fernando Prestes, onde o leitor poderá seguir o passeio somente pelo Praça Cel. Fernando Prestes e Avenida Tiradentes, lado par.
Brevíssimo histórico da região
No começo de sua formação, tratava-se de algumas chácaras esparsas que ficavam entre o centro da cidade e o Rio Tietê, de propriedade de algumas famílias de posse que moravam no centro e as usavam como casa de campo às margens do Córrego e da Estrada do Guaré (atual Avenida Tiradentes), desfrutando do silêncio pela proximidade do convento.
Em 1860, instalou-se ali a primeira grande olaria da cidade, a Olaria Manfred.
Em 1867, a primeira estação da São Paulo Railway instalou-se no bairro vizinho e começou a afetar a tranquilidade das chácaras e além de aumentar a referência de valor imobiliário das glebas.
Alguns anos depois, próximo de 1883, um homem de negócios chamado Manfredo Meyer adquiriu todo trecho de terra e o loteou em grandes lotes para venda.
Em 1884, foi instalada nesse bairro a primeira escola primária da cidade de São Paulo, em localização não determinada com assertividade pelos pesquisadores e enfim, alguns poucos anos depois, foi inaugurado a Escola Politécnica, transformando a região também num reduto dos intelectuais e universitários da época.
Em 1880, tem-se registro dos primeiros imigrantes italianos que chegaram pela Estação da Luz e se estabeleceram na região pela proximidade geográfica. Em 1900, iniciam-se também os registros de famílias israelitas. Essas duas comunidades permaneceram em peso até os dias atuais, além de outros imigrantes em menor escala, como os poloneses e chineses.
Em 1910, a região foi decretada como um Distrito de Paz (um conceito de gestão semelhante ao das subprefeituras atualmente). Em 1912 a região, com destaque para a Rua Três Rios, tornou-se o ponto de encontro de intelectuais e boêmios dessa geração.
Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora
Praça Coronel Fernando Prestes, s/n
Construída em 1923 pelo Grupo Salesiano.
O local, que abriga o grupo de religiosos desde 1914, chegou a ter uma capela construída por eles, que foi demolida para dar lugar à igreja atual.
Horário de funcionamento
Segunda a sexta-feira – 9h às 19h
Sábado – 9h às 16h
Domingo – 7h às 10 e das 17h às 19h
Feriados – não há abertura
Edifício Ramos Azevedo
Praça Coronel Fernando Prestes, 152
Projetado pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo em 1894.
Criado para ser o laboratório de ensaios da Escola Politécnica de São Paulo, que na época abrigava os cursos de Engenharia Civil, Engenharia Agrícola e Arte Mecânica, representou o início dos investimentos, da Instituição e do Governo do Estado, no crescimento da cidade e na preparação das então possíveis mudanças e avanços da tecnologia construtiva.
Horário de funcionamento
Segunda a sábado – 9h às 17h
Centro Paula Souza
Praça Coronel Fernando Prestes, 74
Projetado pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo no final do século 19 para a sede Escola Politécnica no local onde ficava o Solar do Marquês de Três Rios.
Possuía oficinas de carpintaria, serralheria e resistência de materiais, onde foram desenvolvidas as primeiras pesquisas de concreto armado no Brasil.
Atualmente abriga o edifício do Centro de Ensino Técnico Paula Souza do Estado de São Paulo.
Não há visitação turística.
Mosteiro de Nossa Senhora da Imaculada Conceição da Luz e Museu de Arte Sacra
Avenida Tiradentes, 676
O local abrigava uma capela a Nossa Senhora da Luz construída por Domingos Luiz, o “Carvoeiro”, em 1603. Essa edificação abandonada por décadas, após a morte do proprietário, foi objeto de restauro em 1765.
Em 1774, Frei Galvão coordenou pessoalmente a construção de um novo abrigo para freiras que, por lei da época, não podiam morar em mosteiros ou conventos. E fundou ali, então, o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, entrando em funcionamento no ano de 1788. Ainda com parte de igreja inacabada e diferentemente do projeto original, testemunhado em um mural no interior da própria igreja, foi reconhecido como Mosteiro Senhora da Imaculada Conceição da Luz.
Em 1907, começou a servir de depósito para diversas imagens recolhidas de igrejas e capelas demolidas em todo o Brasil, acervo que foi reforçado com a doação de empresários importantes, entre eles, Ciccilio Matarazzo (Francisco Matarazzo Sobrinho).
Com o acervo adquirido, foi aberto ao público em 1970 o Museu de Arte Sacra com peças importantes de Valentim e Aleijadinho, artistas do barroco mineiro, entre muitos outros.
Horário de funcionamento
Terça-feira a domingo, inclusive feriados – 10h às 17h30
Batalhão de Choque “Tobias de Aguiar”
Avenida Tiradentes, s/n
Começou a ser construído em 1888 e inaugurado no ano de 1891, projetado pelo escritório Ramos de Azevedo e construído com auxílio do Corpo Policial Permanente do Estado.
Projeto inspirado no Quartel da Legião Francesa no Marrocos abriga, desde 1975, a Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar” (ROTA), divisão de policiamento da Tropa de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
Durante toda sua existência, o quartel abrigou tropas militares importantes que ajudaram a escrever a história do Brasil, como parte do pelotão de combate da Revolução Constitucionalista de 1932 e, antes disso, o pelotão da última incursão da Guerra de Canudos, em 1897, denominada por Euclides da Cunha em “Os Sertões” como o “Batalhão Paulista”.
Não há abertura para visitação turística.
Ruína do Pórtico do Presídio Tiradentes
Avenida Tiradentes, 451
Com projeto de Ramos de Azevedo de 1852 e construção em 1860, o Presídio Tiradentes foi demolido em 1972 por ter sua estrutura abalada pela construção do metrô ao longo da Avenida Tiradentes.
Durante seu funcionamento, abrigou presos políticos da Era Vargas e do Regime Militar.
Após a demolição da Casa de Correção, como também era chamado na época, foi construído no local o Teatro Franco Zampari, em 1977, projetado por Plínio Croce, Roberto Aflalo e Giancarlo Gasperini.
O pórtico é o único elemento remanescente do conjunto arquitetônico outrora existente.
bibliografia
Arquitetura – Cronologia das Artes em São Paulo 1975-1995, Volume 2. São Paulo, Centro Cultural São Paulo, 1996.
CARVALHO, Maria Cristina Wolff de. Ramos de Azevedo – Coleção Artistas Brasileiros. São Paulo, Universidade de São Paulo, 2000.
DERTONIO, Hilário. O Bairro do Bom Retiro. São Paulo: Prefeitura de São Paulo, 1971.
DIAFERIA, Lorenço; SOMEKH, Nadia; NETO, Candido Malta Campos; GALLO, Haroldo; CARRILHO, Marcos; MAGALHAES, Fernanda; JUNIOR, Jose Geraldo Simões; RIGHI, Roberto; SAIA, Helena; VIEGAS, Renato. Um século de Luz. São Paulo, Scipione, 2001.
LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Ramos de Azevedo e seu escritório técnico. São Paulo, Pini, 1993.
LOURO E SILVA, Hugo; DOKI, Jefferson; CAMILO, Fernanda Yara; BUENO, Francisco Caparroz; TOSCANO, Marina; CRESPO, Amanda; TURU, André; Di PRIOLO, Bianca; PEREIRA, Carolina A.; DOS SANTOS, Carolina Pereira; BONAFÉ, Fabiano; SATO, Felipe; DE CAMPOS, Fernanda Vaz; SARNO, Fernanda; TEIXEIRA, Heberth; ESCAMILHA, Juliana; TIMONI, Laura Vaz de Arruda; LEAO, Leila; VIEIRA, Maria Isabel; FONSECA, Maria Rita; DIANESE, Priscila; CARVALHO, Ricardo; FREIRE, Rodrigo; MO, Vanessa Kavey. Centro histórico de São Paulo. São Paulo, Publicação independente patrocinada pelo Banco Itaú, 2005.
XAVIER, Alberto; LEMOS, Carlos; CORONA, Eduardo. Arquitetura Moderna Paulistana. São Paulo: PINI, 1983.
Sites acessados entre fevereiro e setembro de 2012:
http://www.sampa.art.br/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura
http://www.cidadedesaopaulo.com
http://www.museuartesacra.org.br/informacoes.html
http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u405674.shtml
http://www.sampa.art.br/pinacoteca/
http://www.poiesis.org.br/mlp/servicosdegrupo.php
http://www.emesp.org.br
http://www.arcoweb.com.br
notas
NA – Com base em uma pesquisa que fora desdobrada de uma atividade acadêmica extracurricular, os autores revisitaram as informações outrora produzidas e desenvolveram uma proposta de guia para a região central da cidade de São Paulo. Agradecemos a todos os monitores e organizadores da Gincana dos Bixos, fomentada pelo Dafam, em toda a sua existência, há décadas. Em especial a todos que formam monitores e organizadores em tempo que os autores estiveram envolvidos nesse processo. À Jefferson Doki, pela imensurável importância à existência através do tempo à essa Gincana. À Luiz Benedito de Castro Telles, que revisou e criticou esse texto antes de ter nos deixado.
NE – Este é o quarto de uma série de nove roteiros para passeios arquitetônicos na cidade de São Paulo. Os artigos da série são os seguintes:
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Primeiro percurso: centro histórico. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.02, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6133>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Segundo percurso: centro novo. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 195.03, Vitruvius, out. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.195/6246>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Terceiro percurso: Bairro da Luz. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 196.07, Vitruvius, dez. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.196/6309>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Quarto percurso: Bom Retiro. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.03, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6366>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Quinto percurso: Barra Funda. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 199.02, Vitruvius, fev. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.199/6413>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Sexto percurso: Avenida Paulista. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 200.06, Vitruvius, mar. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.200/6454>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Sétimo percurso: Higienópolis. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 201.04, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.201/6502>.
LOURO E SILVA, Hugo; BUENO, Francisco Caparroz; CAMPOS, Fernanda Grimberg Vaz de. Guia arquitetônico de São Paulo. Oitavo percurso: Parque da Juventude. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.06, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6545>.
sobre os autores
Hugo Louro e Silva é arquiteto e mestre em arquitetura e urbanismo pelo Mackenzie, com especialização em Negócios Imobiliários pela FGV-SP. É sócio diretor da Park Capital Empreendimentos e Participações Ltda. e leciona como professor na pós-graduação lato sensu da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Francisco Caparroz Bueno possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2008). Atualmente é mestrando da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Fernanda Grimberg Vaz de Campos é arquiteta (FAU Mackenzie, 2007), cursa mestrado em Artes Visuais na Unicamp e é correspondente do blog regional Urban Sketchers Brasil.