Ao conhecer a cidade de Nova York no ano de 2009, mais especificamente a região da Ilha de Manhattan, algo me chamou a atenção: os térreos dos empreendimentos privados, os espaços de uso coletivo (de usufruto público) e a relação destes com a população. Em geral, estes espaços são implantados em empreendimentos multifuncionais, onde essencialmente no pavimento térreo existe uma base comercial, áreas de entretenimento, praças e outros equipamentos que possuam algum atrativo para que o usuário possa usufruir do espaço.
Alguns questionamentos começam a surgir ao analisar rapidamente uma cidade como Nova York. Por que lá dá certo e aqui não dá? Por que lá existe essa tipologia – aparentemente funcional – e aqui não? Empiricamente sabe-se que existem algumas questões, principalmente em relação à legislação das cidades que estimularam ou não estes empreendimentos, além das diversidades sociais e culturais, mas é necessário avançar e aprofundar para entender melhor estas questões.
Questões diversas acerca deste tema têm surgido ao longo dos estudos: até que ponto o espaço de usufruto público no empreendimento privado é qualitativo para a sociedade? É possível viabilizar os térreos dos empreendimentos privados para o usufruto público sem segregação? Por que não existem muitos projetos privados com usufruto público (nos térreos) nas cidades brasileiras? Qual é a qualidade dos espaços de usufruto público nos empreendimentos privados? Para quem é destinado o térreo de usufruto público dos empreendimentos privados? Os espaços de usufruto público nos empreendimentos privados promovem integração ou segregação?
A meu ver a questão mais intrigante refere-se à segregação, citada por último. E a hipótese para esta questão – os espaços de usufruto público nos empreendimentos privados promovem integração ou segregação? – é que o espaço de usufruto público nos térreos dos empreendimentos privados promove integração entre os iguais e segregação entre os diferentes. Estabelecendo o uso do espaço para o perfil do público que pretende atender, ou seja, se o determinado empreendimento foi desenvolvido para o público da classe média alta, não é interessante que as classes inferiores frequentem os seus térreos, apesar de serem supostamente de usufruto público e abertos para todos.
Ao definir o local de implantação do empreendimento, os de materiais que serão utilizados nos edifícios, o padrão das lojas para a área comercial e a quantidade de seguranças, por exemplo, o empreendimento pode ter uma barreira não construída, invisível, mas existente e persistente, segregando o espaço que deveria integrar.
O empreendimento Brascan Century Plaza (1), localizado no Itaim Bibi, em São Paulo, é um dos poucos modelos contemporâneos de empreendimento que possui espaço de usufruto público no térreo. Neste existe cinemas, lojas, uma praça de alimentação em meio à área verde que permeia toda praça com bancos, espelho d’água e playground para as crianças, além de dois edifícios corporativos e flat hoteleiro. É possível cruzar por dentro desta praça e sair em duas ruas, já que o empreendimento circundado por três ruas.
O problema do Brascan, a meu ver, relaciona-se as questões de segregação e excesso de regras para manutenção da ordem. Por exemplo, no espaço não é permitido tirar fotos, apenas de pessoas, mas não do local – regras rígidas e sem fundamento. Se a pessoa está se posicionando para tirar uma foto é rapidamente abordada pelos seguranças. Lembro que em 2015 sugeri que uma aluna que estava pesquisando referências para o projeto do TCC, fosse visitar o Brascan por conta própria, ela voltou narrando todo seu constrangimento dentro do espaço, pois os seguranças a abordaram e depois ficavam observando todos os seus passos.
De fato a proposta de uma praça de usufruto público no térreo do empreendimento privado é muito válida, um térreo que permite a permeabilidade do pedestre e propõe uma área de entretenimento agrega muito para a sociedade. O problema é que, ao que tudo indica, só promove benefícios para o público que querem atender.
Uma amiga que trabalhou em um dos edifícios do Brascan relatou-me que constantemente alguns grupos de jovens – mal vestidos, de classes mais pobres – foram convidados a se retirar do empreendimento. Claro que o espaço funciona, mas, em relação à integração dos diversos públicos no espaço, ele não se encaixa como um bom exemplo. Pode ser em função da gestão do condomínio ou talvez pela segurança excessiva e proibições que não fazem muito sentindo, só oprimem.
Na visão empresarial de Rafael Rossi, o incorporador (Huma), é possível promover edifícios residenciais que ofereçam vivacidade no térreo. Ao entrevista-lo para minha pesquisa, abordei a questão, perguntando se ele conseguiria ver alguma solução para que não haja segregação. Ele entende que “para não haver segregação, não pode existir o preconceito, a partir do momento que uma pessoa qualquer se sentir totalmente à vontade em sentar ao lado de um morador de rua, por exemplo, que não toma banho há algum tempo, e esta pessoa não se incomodar com isso, aí de fato não haverá segregação”. Segundo ele, isso é uma questão cultural e são as pessoas que impõe esse tipo de postura dos gestores ou seguranças no espaço.
Ele tem razão, o gestor do empreendimento certamente irá atender aos anseios do seu público-alvo, dos seus consumidores. Então, consequentemente aquele espaço que foi idealizado para ser de usufruto público, não é para todos, não é para qualquer pessoa. Na verdade, é de usufruto de um público específico, aqueles que se encaixam no padrão, aqueles que são iguais – integração entre os iguais e segregação entre os diferentes.
notas
NA – Esta pesquisa está em andamento e faz parte dos estudos para a tese de doutorado que está prevista para ser finalizada no ano de 2018.
1
PORTAL VITRUVIUS. Brascan Century Plaza, projeto de Jorge Königsberger e Gianfranco Vannucchi. Projetos, São Paulo, ano 04, n. 044.01, Vitruvius, ago. 2004 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/04.044/2397>.
sobre a autora
Giselly Barros Rodrigues é doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestre em Habitação pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Arquiteta e Urbanista pela Universidade Anhembi Morumbi. Professora da Universidade Nove de Julho e Estácio de Sá. Arquiteta titular do escritório GBARQ Arquitetura e Planejamento.