O maior mérito (a meu ver, o único) da instalação do Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz era o fato de a obra ter possibilitado a restauração do histórico edifício, que se encontrava há anos em precárias condições de conservação.

Pois, afinal, o museu foi também o seu algoz, com sua parafernália tecnológica, repetindo a catástrofe do incêndio criminoso ocorrido há quase 70 anos, na mesma ala leste e, aparentemente, de proporções ainda maiores (1).

Naquele momento, em que a arquitetura inglesa da estação de 1901 era desprezada pela modernidade, sua reconstrução, apesar de respeitar a estética original, incluiu modificações profundas, como a adição de um pavimento sobre a ala devastada, definitivamente modificando as proporções e o equilíbrio da composição volumétrica anterior.

As principais atividades do museu foram instaladas justamente neste espaço do edifício, de modo que a ala oeste original, sobrevivente do primeiro incêndio, fosse preservada.

E agora, o que fazer? Vamos restaurar a adaptação da intervenção da reconstrução da destruição?? Qual o sentido disso???

A própria instalação do museu no prédio da estação foi controversa e infundada, nem um pouco técnica, meramente política. O edifício, que ainda era mantido com seu uso original, teve de ser esvaziado e completamente adaptado para a nova função, que exigia espaços internos herméticos, como uma câmara escura, para o bom funcionamento dos telões e projeções de um acervo totalmente virtual, que pode acontecer, literalmente, em qualquer lugar.

Por que então na Estação da Luz, já que com a estação em si não estabelecia qualquer relação? Por que não como um anexo da Biblioteca Mario de Andrade, por exemplo, ou outra ainda, com direito a concurso para escolha de projeto e discussão pública?

Mas o museu é fruto da visão de cultura do espetáculo, megalômana, autoritária e privatista, de um secretário da cultura e sua promiscuidade com a Fundação Roberto Marinho, que viram na iniciativa a oportunidade de criar um fenômeno midiático, que, no fundo, não passa disso, tendo gerado pouquíssimo benefício para a área, menos ainda para a população local, apesar do discurso politicamente correto de recuperação urbana.

Hoje, reconhecida como um dos mais importantes bens culturais da nossa cidade, da nossa memória e identidade, a Estação da Luz merece ser repensada e reinterpretada. Já que uma nova reconstrução se faz premente, por que não repararmos os erros cometidos? É claro que será preciso avaliar os reais danos ao bem cultural. Mas, por que não abrir o debate sobre a sua preservação para com a sociedade e, juntos, vislumbrarmos futuros possíveis? Lanço, então, uma provocação:

Pelo restauro da Estação da Luz em sua forma original! (2)

nota

1
NE – Em 6 de novembro de 1946 ocorreu o primeiro incêndio de grandes proporções no edifício administrativo da Estação da Luz. O segundo aconteceu no dia 21 de dezembro de 2015, após um curto-circuito durante a troca de uma luminária.

2
O histórico e o questionamento presentes nesse texto fazem parte da minha dissertação de mestrado: COELHO JR, Marcio Novaes. Projetos de Intervenção no Bairro da Luz: patrimônio e cultura urbana em São Paulo. Orientador Luís Antônio Jorge. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU USP, 2006.

sobre o autor

Marcio Novaes Coelho Jr. é arquiteto pela FAU Mackenzie, mestre e doutor pela FAU USP, com bolsa-sanduíche Capes/DAAD na Universidade Técnica de Berlim. Foi arquiteto do Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (2003-2007). Desde 2009 é sócio do escritório Sguizzardi.Coelho Arquitetura.