As cidades brasileiras vêm se transformando em uma grande “Las Vegas”, onde tudo é falso e culturalmente irrelevante. As áreas urbanas estão se transformando em “cidades iguais”, onde os edifícios são caracterizados por uma grande falta de personalidade. O fenômeno pode ser explicado a partir da hipótese da perda de relevância do arquiteto como definidor do meio urbano, ou ainda pela decadência, irresponsabilidade e a baixa capacitação dos próprios arquitetos, que se esquecem que sua obrigação fundamental é dar ordem aos espaços que abrigam as atividades humanas, e não usar irresponsavelmente os recursos alheios como veículos de auto-expressão (1).
Mas essas questões podem ser apenas um desdobramento natural da lógica do mercado imobiliário atual. Mészáros, em sua abrangente análise sobre o sistema capitalista global, identificou o fenômeno denominado “taxa de utilização decrescente”, ou seja, a diminuição gradual do “tempo de vida” de uma classe ou categoria de bens de consumo (duráveis ou não):
“em sua tendência geral, o modo capitalista de produção é inimigo da durabilidade e, portanto, no decorrer de seu desdobramento histórico, deve minar de toda maneira possível as práticas produtivas orientadas-para-a-durabilidade, inclusive solapando deliberadamente a qualidade” (2).
Por durabilidade, ou a falta dela, entendemos a deterioração física ou simbólica prematura de um produto de consumo: “os artigos ficam velhos ou pela deterioração propriamente dita ou pelo desgaste de suas partes; por melhorias na maneira de construir; ou por modificações na forma e no estilo, exigidas pelo gosto variável da época” (3).
A “sociedade dos descartáveis” reverteu a lógica do aperfeiçoamento da produtividade, criando um equilíbrio entre produção e demanda baseado em um consumo-e-descarte artificial e de grande velocidade, de uma imensa quantidade de mercadorias, categorizadas até recentemente como bens duráveis.
A taxa de utilização decrescente, porém, não é inerente ao avanço produtivo, como se poderia deduzir. Ela necessita de condições especiais para acontecer: especialização dos produtores e sua alienação das matérias primas e dos meios de produção (4). No caso do mercado imobiliário, podemos identificar os produtores como indivíduos: proprietários de terra, arquitetos, engenheiros, construtores, advogados, agentes públicos, profissionais de marketing, além de gerentes e diretores de empresa. Estes últimos muitas vezes vêm de outros setores do mercado que não o imobiliário, e sua continuidade no cargo dependem de metas de lucratividade, e não da qualidade real do produto imobiliário ofertado pela empresa.
À medida que avançou em direção a um estágio mais ‘avançado’, o mercado imobiliário passou a introduzir técnicas de produção que nada tem (ou tinham) a ver com o seu ramo de atividade. De maneira geral, é possível notar nas incorporadoras e construtoras uma forte orientação em direção ao marketing como definidor das soluções arquitetônicas e estilísticas, em detrimento das soluções geradas a partir de conceitos típicos da arquitetura, como conforto térmico, significado cultural, qualidade de vida, entre outros.
As técnicas de marketing e vendas condicionam o projeto, e o arquiteto se limita a condicioná-lo às tendências do mercado, resultando na pasteurização da paisagem urbana. A arquitetura é tratada como objeto de consumo, com tendências de moda que mudam a cada ano. Dessa maneira, o marketing decreta a obsolescência dos novos edifícios muitas vezes antes de serem construídos. A partir de uma suposta preferência do consumidor, cria produtos novos baseados em conceitos velhos, estimulando o gosto pela inovação constante (5).
As estratégias de marketing relacionam algumas características da habitação humana (abrigo, conforto, segurança e privacidade) à realização do sonho de morar, e é deste sonho e de sua recriação constante que o mercado imobiliário se estrutura, introduzindo periodicamente inovações que tentam satisfazer as expectativas dos consumidores, mas também criam constantemente novas necessidades (6).
Também é notável a apropriação, por parte das empresas do setor imobiliário, de estratégias comerciais e de produção do setor varejista popular, que visam a diminuição máxima do custo de produção. Segundo o portal da revista Exame, a construtora Tenda,
“construtora que prosperou nos últimos anos vendendo imóveis para consumidores de baixa renda [...], decidiu simplesmente copiar as duas companhias brasileiras que considerava modelo no mercado: a Casas Bahia e o Habib's [...]. Do Habib's, rede de fast food de comida árabe, a empresa copia a padronização, uma forma de baixar custos. Todas as casas e os apartamentos seguem o mesmo projeto – o que, apesar de tedioso, diminui em mais de 10% o gasto com engenheiros e arquitetos” (7).
Por outro lado, a avaliação técnica e comparação das novas edificações com empreendimentos feitos em outras épocas, do ponto de vista técnico-construtivo, poderia nos levar à conclusão que a “durabilidade” do ambiente construído está diminuindo, o que confirmaria a teoria de Mészáros aplicada sobre o mercado imobiliário, na vertente mais tradicional do conceito de durabilidade. Obviamente, a comparação de vida útil de edifícios, do ponto de vista construtivo, é difícil de ser feita.
Uma terceira nuance do fenômeno pode ser identificada em respeito à “utilidade” do produto imobiliário em si. Nesse caso, é possível verificar uma ligação entre a especulação imobiliária e a taxa de utilização decrescente: “O ‘capitalismo avançado’ [...] inventa um tipo de produção em relação ao qual o tradicional desafio do consumo (utilidade) só se aplica, se tanto, marginalmente” (8). Muitos dos lançamentos imobiliários tem como público-alvo um tipo de comprador denominado “investidor”. Esse seleto grupo normalmente adquire mais de uma unidade por empreendimento, e as reserva na busca de uma valorização futura; outras vezes, somente as vêem como aplicações financeiras de baixo risco, especialmente em épocas de economia turbulenta.
Assim, a “utilidade” do produto imobiliário, especialmente o residencial – moradia, abrigo - se coloca em segundo plano. Segundo Raquel Rolnik, em entrevista cedida à Manoel Lemes da Silva Neto em 26 de agosto de 2008: “Como nós, que temos no Brasil 6 milhões de casas e apartamentos vazios e 7 milhões de favelados!” (9). Grande parte dos imóveis residenciais produzidos no Brasil recentemente não tem a finalidade de abrigar pessoas, mas de serem “consumidos” com outras finalidades, às vezes totalmente avessas à ocupação real. Conforme demonstra Mészáros, sua utilidade se aplica, na melhor das hipóteses, marginalmente.
A lógica da taxa de utilização decrescente, ao ser aplicada ao mercado imobiliário, gera produtos que seriam descartáveis, se não fossem eles os elementos construídos que compõem o ambiente urbano:
“Como se pode tratar um edifício como objeto de consumo, adotando a última moda ou ‘tendência’ e tratando sua organização e aparência de maneira leviana? Uma roupa de corte fora de moda pode ser descartada facilmente, um carro já é mais difícil, um edifício é impossível. O projeto arquitetônico que segue a moda pode até ser o sucesso de hoje, mas com mais certeza será o embaraço de amanhã, e o ridículo de depois de amanhã. Tratar a arquitetura como algo passível de ser consumido termina por tornar a própria disciplina obsoleta, enquanto seus produtos permanecem como monumentos à estupidez humana” (10).
notas
NA – O presente artigo foi produzido para a disciplina “Territórios e Poder”, ministrada pela professora Laura Machado de Mello Bueno no curso de Mestrado em Urbanismo da PUC-Campinas, em 2011.
1
MAHFUZ, Edson. A arquitetura consumida na fogueira das vaidades (editorial). Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 012.00, Vitruvius, maio 2001 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.012/886>.
2
MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo, Boitempo Editorial, 2002, p. 636.
3
GABBAGE. Apud MÉSZÁROS, István. Op. cit., p. 637.
4
MÉSZÁROS, István. Op. cit., p. 641.
5
CLARO, José Alberto Carvalho dos Santos; DAMANTE Mariana Mazzariello. Marketing e a estratégia usada na produção arquitetônica: uma crítica à produção imobiliária. Revista Gestão & Regionalidade, vol. 25, n. 75, set./dez. 2009.
6
VILLA, Simone Barbosa. O produto imobiliário paulistano: uma crítica a produção de apartamentos ofertados no mercado imobiliário a partir de 2000. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2006, p. 14.
7
MEYER, Carolina. O Avanço na baixa renda - Portal Exame, São Paulo, 05.01.2007 <http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0884/negocios/ m0119837.html>. Acesso em 08 jun. 2010.
8
MÉSZÁROS, István. Op. cit., p. 640
9
ROLNIK, Raquel. O direito à moradia no Brasil e no Mundo. Entrevista por Manoel Lemes da Silva Neto. In Oculum Ensaios, n. 7/8. Campinas, PUC-Campinas, 2008, p. 151.
10
MAHFUZ, Edson da Cunha. Op. cit.
sobre o autor
Thiago Carneiro Amin é arquiteto e urbanista com graduação e mestrado pela PUC-Campinas. Possui ampla experiência na área de desenho urbano, paisagismo, planejamento e infraestrutura urbana. Atualmente é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, e arquiteto titular do escritório de projetos Alameda Urbanismo, de Campinas SP.