A coletividade faz parte da essência urbana. A cidade é o território da congregação e da mistura entre pessoas; o espaço para explorar as contradições, administrar as diferenças e construir os consensos através da política. Materializa os lugares da urbanidade e da civilidade, representação dos estágios mais evoluídos da convivência social. Integrar e incluir pessoas, promover o debate civilizado, estimular o respeito e celebrar a diversidade são (ou deveriam ser) objetivos supremos da construção dos espaços públicos e da nobreza cidadã, independentemente do tipo, forma, função ou estrutura dos edifícios e lugares que configuram um fato urbano.
Estruturas ou construções que segregam, dividem, excluem ou denigram a convivência entre as pessoas jamais poderão ser chamadas de “cidade”, ainda quando fazem parte do que se convencionou chamar com esse nome, enquanto não atendam aos princípios e objetivos mencionados no parágrafo inicial.
De acordo com estas considerações, podemos atribuir a essência da arquitetura à capacidade de qualificar os espaços que estimulam a convivência social. Esta hipótese leva a questionar a própria produção de projetos e o exercício profissional nas condições em que se constroem hoje as cidades brasileiras. Sob a ideologia da economia de mercado, o território urbano e a arquitetura viraram mercadorias alheias aos critérios transcendentes de integração, inclusão e promoção social, assim como de produção cultural.
Tais reflexões se produzem à luz da realidade urbana de cidades como Recife, especialmente nas áreas consideradas “nobres” pela sociedade local, anestesiada pela persistência anacrônica de ideologias que promovem a divisão de classes e a segregação social, assim como de privilégios ancestrais ancorados em atitudes e comportamentos de coronelismo e provincianismo impróprios do pensamento do século 21.
A tragédia urbana se impõe arrasando qualquer intento de convivência no espaço público, hoje configurado por muros e guaritas de segurança, invadido por automóveis e desqualificado nos atributos mínimos de dignidade e autoestima cidadã. O que se convencionou chamar cidade nobre é, na realidade, cidade podre, de podridão extrema nos comportamentos sociais, manifestação da miséria ostentada em muros revestidos em granito, grades elaboradas em alumínio e jardins divisórios entre privilegiados que se refugiam nos itens de lazer, vendidos pela promoção imobiliária, e pedestres que se arriscam a enfrentar a péssima qualidade das calçadas e demais elementos do espaço urbano.
A consagração dos edifícios de uso exclusivo e excludente espalhou-se como metástase, acabando com as áreas habitadas pelas classes média e alta, transformando suposta “nobreza” em podridão urbana. Estes edifícios, que consolidam a chamada “cidade formal”, projetados de acordo com as leis e regulamentos técnicos vigentes, contrastam com a efervescência das construções informais em favelas e periferias populares, de baixa qualidade habitacional, porém transbordantes de vitalidade e energia social.
Perante a contraditória realidade, a esperança de recuperação urbanística concentra-se em duas áreas ainda não contaminadas pela metástase de putrefação: o centro da cidade, pleno de significados e ociosidade de construções abandonadas ou subutilizadas, e as periferias e favelas, plenas de vitalidade e degradação urbana e ambiental.
Os desafios urbanísticos do século 21, que se convencionou em chamar “o século das cidades”, passam por atitudes mais humanizadas e menos soberbas e tecnocráticas, que estimulem a inclusão e integração entre as pessoas como garantia de civilidade, e retomem o protagonismo das cidades como centros de inteligência, de cultura e de evolução genuína da vida em sociedade.
As áreas chamadas “nobres” hoje se encontram irremediavelmente perdidas em cidades como Recife, entregues à paranóia do egoísmo, da segurança, da “carrocracia” e dos privilégios excludentes. Visões alternativas se impõem para gestores e profissionais comprometidos com cidades que potencializem o melhor do espírito humano, capazes de construir legados que tirem partido do surpreendente desenvolvimento científico contemporâneo, ao mesmo tempo em que superem os anacronismos vergonhosos que impedem o natural desenvolvimento da espécie humana.
sobre o autor
Roberto Ghione, arquiteto, formado pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Pós-graduado em Preservação do Patrimônio, Crítica Arquitetônica e Planejamento Urbano pela Universidad Católica de Córdoba. Titular do escritório Vera Pires Roberto Ghione Arquitetos Associados, Recife, PE.