Em 2014 a Copa do Mundo, organizada pela Fifa no Brasil, demandou a construção e reforma não apenas de estádios, mas também sua adequação urbana. O discurso oficial argumenta que após a realização do evento, os equipamentos construídos serão um legado positivo para as cidades-sede. Porém verifica-se que foram poucos os países sede que lucraram direta ou indiretamente com a realização dos eventos, principalmente devido a ulterior subutilização dos equipamentos construídos, pouco adequados à realidade local, bem como a operação custosa das infraestruturas de apoio (1).

No caso brasileiro, nas doze capitais eleitas para a Copa foi necessária a construção de sete estádios e a reforma de cinco outros, inteirando investimento da ordem de 3 bilhões de dólares. Dentre os estádios reformados está a Arena Castelão localizada em Fortaleza, foco deste trabalho.

Arena Castelão, Fortaleza, escritório Vigliecca e Associados
Arena Castelão, Fortaleza, escritório Vigliecca e Associados

O estádio Castelão original é de 1973, auge da ditadura militar, e contava na época com capacidade para 60.326 pessoas. Em 2007 por ocasião da escolha do Brasil como país sede da Copa 2014 verificou-se que o estádio não se encontrava em conformidade com os requisitos estabelecidos pela Fifa para receber os jogos da Copa do Mundo. Como consequência o estádio passou por uma grande reforma estrutural e das instalações, que pode ser descrita por: “com profundas alterações na configuração que existia anteriormente. Para tanto, optou-se pelo regime de PPP como alternativa econômica e administrativa mais viável em benefício da procura de eficiência que tem pautada as ações do Estado do Ceará.” (2). Estas obras foram iniciadas em 2010 e concluídas em 2012, capacitando-o para receber grandes eventos e prioritariamente a Copa do Mundo de 2014. Como balanço das obras feitas no decorrer dos dois anos, sabe-se que ocorreram de maneira eficiente seguindo o cronograma previsto para conclusão de cada etapa da reforma e sua finalização, fato excepcional no âmbito das obras para a Copa.

O conjunto conta com o estádio principal e outro onde funcionará a Secretaria de esportes e o Departamento de Arquitetura e Engenharia, dois estacionamentos e duas praças.

Hoje o estádio conta com aproximadamente 64.000 lugares, sendo completamente reformulado, com o custo total da reforma de R$ 518,6 milhões, com sua função ampliada: “Com a entrega da Arena Castelão reformada, ampliada e modernizada a população cearense terá à disposição um complexo multiuso que estará habilitado a receber grandes eventos de negócios, esportivos, culturais, artístico e religioso” (3).

Arena Castelão, Fortaleza, escritório Vigliecca e Associados
Arena Castelão, Fortaleza, escritório Vigliecca e Associados

Durante a concepção do projeto de reforma, foi proposta a certificação do estádio pelo selo LEED (4), numa atitude inovadora, pois é o primeiro estádio na América do Sul a submeter-se a isto.

No LEED o edifício e complementos foram submetidos e verificados quanto a seu atendimento em cinco categorias setoriais, a saber:

Sítios sustentáveis:

– Proteção das galerias e bocas de lobo evitando o acúmulo de detritos na rede pluvial;

– Bacias de decantação para reter efluentes da água da chuva, minimizando seu impacto na rede pública;

– Locação de “lava rodas” para evitar que as vias públicas sejam sujas com os detritos contidos nas rodas dos caminhões;

– Fixação de tapumes para evitar a dispersão dos sedimentos fora da área da obra;

– Umidificação do local, para evitar a suspensão de poeira;

– Local de lavagem dos caminhões betoneiras a fim de evitar a contaminação do solo por resíduos tóxicos;

– Estímulo ao uso de transportes sustentáveis, com locação de bicicletário para funcionários do estádio e da Secretaria de Esportes;

– Reserva de 5% de vagas no estacionamentos para a prática da carona solidária e 5% de vagas para carros de baixa emissão.

Consumo e eficiência de água:

– Instalação de descarga de duplo acionamento (3 litros ou 6 litros);

– Torneiras com fechamento automático;

– Sistema de esgoto à vácuo reduzindo o volume de esgoto gerado;

– Preservação das fontes e mananciais de água potável.

Energia e atmosfera:

– Sistema eficiente de ar condicionado para a Secretaria de Esportes e o estádio;

– Lâmpadas energeticamente eficientes e com maior durabilidade;

– Sistema de desligamento automático da rede de ar condicionado e iluminação;

– Padronização dos sistemas de instalações técnicas, visando a correta instalação e uso.

Materiais e recursos:

– A madeira utilizada na construção possuía selo 100% FSC (Forest Stewarship Council);

– Separação dos resíduos gerados durante a construção com armazenamento em contêineres;

– Reciclagem do material de demolição dentro da própria obra;

– Tratamento da água utilizada na lavagem dos pincéis.

Qualidade do ar interno:

– Uso de lixadeiras com aspiradores a fim de evitar o acumulo de partículas suspensas;

– Renovação máxima do ar nos ambientes internos, segundo a norma americana ASHRAE 62.1 e da Anvisa.

– Controle da iluminação interna;

– Proteção dos dutos de ar durante a obra, para evitar o acumulo de partículas e a aspersão destas no ambiente interno;

– Uso de materiais com baixo teor de compostos orgânicos voláteis;

– Controle do conforto térmico dentro dos escritórios da Secretaria de Esportes.

São então rigorosos os procedimentos empregados do LEED na construção e operação da Arena Castelão, impondo custos elevados e dificuldades organizacionais e logísticas. Apesar disto, ele pouco garante, na medida que o processo de reforma da Arena Castelão mostra-se, em parte, pouco útil e necessário em seu uso no pós Copa. Há evidências de que o uso do estádio será incapaz de sustentá-lo financeiramente após os jogos, apesar das afirmações iniciais. Os clubes Fortaleza e Ceará, mais importantes daquele estado já não se interessaram em assinar contrato para utilização da Arena Castelão.

Quanto a avaliação do processo de certificação LEED, apesar de ser uma medida importante para incremento da qualidade da obra, traz estranheza sua ênfase, na medida em que a concessão de pontos favoráveis baseia-se em ações e procedimentos que possuem uso corriqueiro e que, em muitos casos, já são previstas como obrigatórios em leis e normas oficiais. Este é o caso da utilização de tapumes durante as obras e a preservação das fontes e mananciais de água potável, já estabelecidos no Código de obras e posturas do Município de Fortaleza de 1981 nos artigos 29 e 638, respectivamente.

Assim, é possível afirmar que a maior parte das exigências do LEED reafirmam procedimentos e exigências técnicas já previstas e constantes das normas oficiais, preceitos práticos e teóricos acadêmicos, que na realidade brasileira podem até ser enfaticamente tratados e que infelizmente muitas vezes, apesar de sua duplicidade, são até omitidos.

Arena Castelão, Fortaleza, escritório Vigliecca e Associados
Arena Castelão, Fortaleza, escritório Vigliecca e Associados

notas

1
MEYER, Regina; EROLES, Elisa; LOUREIRO, Sergio; FONTES, Orlando. Infraestruturas nas Copas do Mundo da Alemanha, África do Sul e Brasil. Caderno Metrópole, São Paulo, v. 15, n. 30, pp. 557-582, 2013.

2
Ceará - Estádio Castelão - Obra Integral – PPP. Portal Copa Transparente <http://www.copatransparente.gov.br/acoes/estadio-castelao-obra-integral-ppp>.

3
Arena Castelão, item “sustentabilidade” <http://www.arenacastelao.com/site/o-castelao/arena-castelao/sustentabilidade>.

4
LEED – Leadership in Energy and Environmental Design,GreenBuilding Council.

sobre os autores

Valmir Ramos é arquiteto e urbanista, mestrando em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Roberto Righi é arquiteto e urbanista, professor titular em arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Doutor da Universidade de São Paulo.