“O que eu quero chamar de monumental não é questão de tamanho ou de ‘espalhafato’, é apenas um fato de coletividade, de consciência coletiva. O que vai além do ‘particular’, o que alcança o coletivo, pode (e talvez deve) ser monumental”.
Lina Bo Bardi (1)

A atual dimensão do Masp na consciência coletiva paulista torna o debate sobre a situação de segurança pública no seu vão livre um condensador dos dilemas e agruras por que passam as grandes cidades brasileiras. Ao ver acontecer ali o que acontece há muito em outros lugares da cidade, certos setores da sociedade apresentaram a proposta de fechamento noturno desse espaço. A forte reação da opinião pública contra tal proposta, ocorrida nos últimos dias em redes sociais e na própria imprensa, demonstra que a liberdade simbolizada pelo vão do Masp produz ainda enorme reverberação no imaginário social. Tal polarização só é útil se levar ao debate e a novas propostas para enfrentar o problema.

Ao comemorarmos a data na qual Lina Bo Bardi completaria 99 anos (5 de dezembro), é mais do que oportuno direcionar o debate para a atualidade da sua concepção e os desafios para sua preservação.

O vão livre é o segundo aspecto central do caráter arquitetônico e cultural do Masp a ser comprometido.

O primeiro foi o modo de expor concebido pelo casal Bardi – Lina e Pietro. Os dispositivos de exposição do acervo, com placas de vidro temperado para suportar os quadros, procuravam aproximar as obras do público – mostrando-as sem qualquer suntuosidade. As fachadas transparentes lançavam as obras de arte ao espaço urbano, tirando “do museu o ar de igreja que exclui” as pessoas simples.

O vão livre é uma interpretação radical da dimensão pública do solo urbano, estendido a partir da Avenida Paulista e dividindo o museu ao meio. Vão livre e terraço configuram uma praça seca sobre a parte inferior, abrigando sob a parte superior uma infinidade de usos, como qualquer espaço público deve fazer.

Ambas as ações se complementavam: o museu aproximava a arte da vida citadina e criava um espaço público urbano sem barreiras. Concepções modernas que apontam para a emancipação dos sujeitos em uma sociedade democrática. Não por acaso são ameaçadas na condição contemporânea, acusadas de utópicas e irreais. A primeira foi totalmente suprimida a partir de 1996, alijando o museu da principal estratégia programática, a transparência. E agora a radicalidade da segunda está sob forte ataque.

O passar do tempo coloca novos desafios para a preservação de qualquer arquitetura, ainda mais as que pretenderam ser inovadoras. Sua preservação não pode nem ignorar a realidade atual, nem comprometer o seu significado original.

Não podemos nos resignar com a chegada da violência urbana paulistana no vão livre. Seu enfrentamento exige políticas públicas integradas, envolvendo além dos organismos de segurança, o planejamento de ações sociais e de saúde pública. O Instituto Bardi acredita que somente através de planejamento e gestão adequada do poder público, estadual e municipal, poderá ser revertida a degradação do espaço do vão livre. Além disto, propomos uma ação conjunta com instituições não governamentais, universidades e o próprio museu, para torná-lo, no ano do centenário de Lina Bo Bardi, uma nova referência de espaço público na consciência coletiva paulista: livre, seguro e inclusivo.

O Masp e seu vão livre não deveriam ser cercados, mas sim abraçados pela sociedade paulista (2). Um abraço que defenda a liberdade política que ele representa, que o proteja da violência urbana a que está sujeito, que ampare aqueles que ali estão e necessitem de ajuda. Um abraço que represente o afeto desta sociedade pelo museu que ela reconhece como seu principal ícone.

Museu de Arte de São Paulo, arquiteta Lina Bo Bardi
Museu de Arte de São Paulo, arquiteta Lina Bo Bardi

notas

NE
O portal Vitruvius tem publicado artigos sobre o tema desde a publicação do editorial do jornal O Estado de São Paulo defendendo o fechamento do vão livre. Abaixo temos os links para quem quiser acompanhar a discussão.

É preciso preservar o Masp. Editorial. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 20 nov. 2013 <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-preciso-preservar-o-masp-,1098579,0.htm>.

GUERRA, Abilio. Os retrógrados. Sobre o fechamento do vão livre do Masp. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 160.05, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.160/4961>.

PERROTTA-BOSCH, Francesco. Occupy vão livre. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 160.06, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.160/4968>.

FABIANO JR, Antonio. Vão do Masp. Uma viagem no tempo e a dura realidade atual. Arquiteturismo, São Paulo, ano 07, n. 081.01, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/07.081/4969>.

1
BARDI, Lina Bo. O novo Trianon, 1957/67. Mirante das Artes, n. 5, São Paulo, set./out. 1967, p. 20-23.

2
”O vão livre do Masp merece um abraço de São Paulo!” é o título da manifestação convocada para acontecer no vão livre do Masp, no dia 7 de dezembro de 2013, às 11h.

sobre o autor

Renato Anelli é professor titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP São Carlos e diretor do Instituto Bardi.