Após o anúncio de que a Petrobrás compraria prédio e terreno do Quartel General da Polícia Militar, a estatal recuou, muito embora o Governador tenha mantido a decisão de vender este e outros imóveis como foi explicado em “Vendo o Rio, no Estado – estudo de caso: Botafogo” (1).

O caso do QG, sítio com dois séculos de história, foi analisado em três posts de maio e junho de 2012 (2). Os dois últimos, em especial, tiveram boa repercussão. Leitores, estudiosos, militares, e profissionais de várias áreas prontamente colaboraram com sugestões para o melhor aproveitamento do terreno em prol da cidade e de seus moradores - ao invés de simplesmente entregá-lo à construção civil, pequenez corroborada pelo silêncio da Prefeitura – uma vez que a transferência dos policiais era imperativa.

Assim como no caso da Marina da Glória, passado o ano eleitoral o assunto voltou à tona (3).

Parte do terreno do 2º BPM, em Botafogo, já foi vendida para a construção de edifícios, perdida, pois, a oportunidade de dotar o bairro, carente de áreas verdes e livres, de uma praça. Agora é a vez do QG, um pedaço do coração do Rio de Janeiro.

Segundo informou o jornal O Globo, a demolição será adiada porque o prédio ainda não está totalmente desocupado (4). De nada adiantaram, até aqui, as manifestações contrárias da sociedade nem a respeitável opinião de historiadores, arquitetos e urbanistas de renome, por exemplo, Nireu Cavalcanti, Milton Teixeira, Alexei Bueno e Augusto Ivan Freitas Pinheiro.

Não obstante a palavra daqueles profissionais, o recém-nominado Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, antes SEDREPHAC, e o Conselho Municipal que instrui o Executivo estranhamente consideraram que, do ponto de vista do patrimônio cultural, o imóvel e local que abrigam 200 anos de História do Brasil não são de interesse à proteção.

Impõe-se que o Prefeito – autoridade máxima no que respeita ao uso do solo – aja para impedir a demolição do imóvel e resgatá-lo para a cidade que administra, uma vez ciente de que a área é importante para o Rio do ponto de vista histórico e urbanístico.

Cabe indagar se os órgãos técnicos de planejamento analisaram a hipótese com imparcialidade, passando ao largo da falta de visão e mesquinhez do governo estadual, que pretende trocar o sítio histórico especial por “trinta dinheiros”, com a mesma pequenez que desprezou a oportunidade de criar uma praça em frente ao Palácio da Cidade para favorecer a indústria da construção civil.

Setores das Secretarias de Urbanismo, Habitação, Cultura e Turismo, por exemplo, conforme os objetivos de suas missões institucionais, deveriam propor ao Executivo Municipal que mantivesse entendimentos com o governo estadual com vistas a incorporar prédio e terreno à urbe carioca dando-lhe função para requalificar a região, sem permitir jamais o lugar comum que seria entregá-los também às imobiliárias.

O QG da PM deve ser trazido à cidade ampliando-se o pólo de atração formado pela da Cinelândia, Teatro Municipal, Museu de Belas Artes, Biblioteca Nacional, Palácio Pedro Ernesto, Edifício Amarelinho, entre outros, e estendendo-o até os Arcos da Lapa, APAC da Cruz Vermelha, Passeio Público, Escola de Música e antigo Automóvel Clube, para citar apenas algumas das preciosidades arquitetônicas e históricas presentes no Centro da Cidade que são a nossa memória urbana viva.

Se os órgãos de patrimônio cultural no âmbito das atribuições a eles confiadas entendem que não há interesse para proteção, do ponto de vista urbanístico certamente haverá.

O prefeito da Cidade do Rio de Janeiro está diante de oportunidade única para exercer sua autoridade de modo sóbrio e condigno.

Esperamos que saia do seu silêncio obediente ao governador, e defenda o Rio.

notas

NE
Publicação original do artigo: REDONDO, Andréa Albuquerque G. Quartel da PM, o QG da Rua dos Barbonos: ao pó. Ou não. Rio de Janeiro, Blog Urbe Carioca, 16 abr. 2013 <www.urbecarioca.blogspot.com/2013/04/quartel-da-pm-o-qg-da-rua-dos-barbonos.html>.

1
REDONDO, Andréa Albuquerque G. Vendo o Rio, no Estado – estudo de caso: Botafogo. Rio de Janeiro, Blog Urbe Carioca, 3 jul. 2012 <www.urbecarioca.blogspot.com.br/2012/07/vendo-o-rio-no-estado-estudo-de-caso.html>.

2
REDONDO, Andréa Albuquerque G. Vendo o rio, quartel da PM e Bigorrilhos. Rio de Janeiro, Blog Urbe Carioca, 23 maio 2012 <www.urbecarioca.blogspot.com.br/2012/05/vendo-o-rio-quartel-da-pm-e-bigorrilhos.html>.
REDONDO, Andréa Albuquerque G. Quartel da PM, a enorme pequenez. Rio de Janeiro, Blog Urbe Carioca, 29 maio 2012 <www.urbecarioca.blogspot.com.br/2012/05/quartel-da-pm-enorme-pequenez.html>.
REDONDO, Andréa Albuquerque G. Quartel da PM, um bom combate. Rio de Janeiro, Blog Urbe Carioca, 1 jun. 2012 <www.urbecarioca.blogspot.com.br/2012/06/quartel-da-pm-um-bom-combate.html>.

3
REDONDO, Andréa Albuquerque G. Mais Marina: a propaganda que engana. Rio de Janeiro, Blog Urbe Carioca, 19 mar. 2013 <www.urbecarioca.blogspot.com.br/2013/03/mais-marina-propaganda-que-engana.html>

4
CANDIDA, Simone; DAMASCENO, Natanael. Estado vende batalhões da PM sem se preocupar com debate. Rio de Janeiro, O Globo, 11 abr. 2013 <http://oglobo.globo.com/rio/estado-vende-batalhoes-da-pm-sem-se-preocupar-com-debate-8083996>.

sobre a autora

Andréa Albuquerque Garcia Redondo é arquiteta (FAU UFRJ, 1975), com pós-graduação em Urbanismo (FAU UFRJ, 1990) e em Governo e Administração Municipal pela Escola Nacional de Serviços Urbanos – ENSUR (Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM, 1992). Atualmente atua como arquiteta autônoma e presta consultoria em legislação edilícia e urbanística na cidade do Rio de Janeiro.