As paisagens da cidade do Rio de Janeiro, uma cidade com 6, 3 milhões de habitantes, são realmente impressionantes e únicas. É o resultado de cinco séculos de interações entre o homem e a natureza. Na semana passada a Unesco elegeu parte da cidade como Patrimônio Cultural do Mundo.

É muito significativo que a maioria das imagens premiadas tenha os maciços cobertos por Mata Atlântica com alta biodiversidade que se regenerou dos impactos causados por séculos de exploração de recursos naturais e de práticas de agricultura que tinham eliminado a cobertura vegetal nativa (1). Na verdade as florestas estão fragmentadas, cercadas por densa ocupação urbana e sob pressão de expansão que repete os mesmo enganos feitos no passado. As áreas urbanizadas ocupam prioritariamente as terras mais baixas, onde lagoas oceânicas e brejos foram aterrados com o desmonte de muitos morros. O Parque do Flamengo (um dos locais eleitos) é um enorme aterro com 1,2 Km², onde o paisagista Roberto Burle Marx, reconhecido mundialmente, foi o responsável pelos magníficos jardins.

No maciço da Tijuca, onde se situa o Cristo Redentor que olha sobre a cidade, plantações de café substituíram as florestas e depois foram abandonadas deixando uma paisagem seca coberta por gramíneas. No século XIX suas encostas foram parcialmente replantadas para restaurar as fontes de água, com a regeneração natural que ocorreu em vastas áreas dos dois maiores maciços da cidade: Tijuca e Pedra Branca. Ambos se tornaram áreas protegidas. O Parque Nacional da Tijuca é um dos locais eleitos pela Unesco. Nos últimos 25 anos, o bem sucedido programa da Secretaria do Meio Ambiente “Mutirão Reflorestamento”, efetivamente replantou árvores com intuito de conter deslizamentos, muitos próximos a favelas. Trata-se de um programa sócio-ecológico porque emprega e capacita moradores das comunidades locais para o plantio e monitoramente, que acabam se tornando guardiões da floresta.

O verde se submete ao cinza

Apesar da natureza estar quase sempre presente em nossas belas vistas, as áreas urbanizadas são altamente impermeáveis e cinzas, especialmente na Zona Norte onde não há quase nenhum remanescente de área verde, nem mesmo praças públicas. A cidade tem ambientes extremamente diversificados, com florestas luxuriantes e belos parques contrastando com ruas áridas, quentes e barulhentas onde a maioria da população vive. A maior parte do tempo faz muito calor. Por exemplo, hoje é inverno e a temperatura no meio do dia é de 29°C. Moro perto da floresta, onde é bastante agradável com muitas árvores, pássaros e insetos. Espécies nativas e exóticas invasoras estão presentes e deveriam ser permanentemente manejadas. A biodiversidade abunda especialmente perto dos remanescentes dos ecossistemas florestais. Na verdade, se deixar as janelas abertas de manhã macacos-prego (Cebus apella) entram no meu apartamento. Muitos moradores os alimentam, portanto retornam atrás de comida fácil e não apropriada para eles. Ao mesmo tempo, se eu descer um quarteirão, o engarrafamento é constante, as temperaturas são mais elevadas e as árvores das ruas estão velhas, sob intensa pressão em situações inadequadas, muitas estão morrendo e não estão sendo repostas.

As pessoas valorizam os morros com as florestas e as praias principalmente para recreação, para caminhar, andar de bicicleta ou apenas para contemplar. Não estou certa de como reconhecem e valorizam os serviços ecossistêmicos (ou ambientais, como são mais conhecidos) prestados pelas florestas e pelas árvores urbanas. Existe uma enorme oportunidade para pesquisar sobre ecologia urbana no Brasil, mas ainda não há educação formal nos campos de ecologia urbana e planejamento urbano/regional da paisagem. Biodiversidade urbana e as relações pessoas-natureza também ainda não são preocupações presentes na maioria das cidades brasileira, onde nos últimos 20 anos shopping centers e jardins cosméticos com tendências globalizadas localizados em condomínios fechados têm se tornado as áreas de lazer de grande parte das cidades, substituindo os espaços públicos abertos onde o encontro com diversidade social acontece.

Natureza urbana não é uma prioridade para os tomadores de decisão do Rio de Janeiro

Para os tomadores de decisões do Rio de Janeiro a natureza urbana não é uma prioridade. Existe uma falta de compreensão do papel da biodiversidade para a qualidade de vida em uma cidade saudável. As áreas urbanizadas estão sujeitas a enchentes e deslizamentos devido às mudanças históricas do uso do solo e da cobertura vegetal. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos irão ocorrer nos próximos anos e estão levando a uma rápida expansão urbana que segue os mesmos padrões de transformação dos remanescentes de áreas alagáveis localizados nas baixadas de Jacarepaguá e Guaratiba. Áreas alagadas estão sendo aterradas para dar lugar a estradas (para carros e BRT’s) e para o processo especulativo do mercado imobiliário. O último remanescente de manguezal legalmente protegido (Reserva Biológica de Guaratiba) está sob ameaça de desaparecer pelo excesso de salinidade, devido à nova estrada que foi construída com técnicas tradicionais de engenharia que interferem nos fluxos hidrológicos, que estão causando enchentes mais freqüentes e recorrentes nas áreas residenciais do outro lado da estrada, segundo seus moradores. Outras estradas estão sendo projetadas e construídas sem o devido entendimento da ecologia das paisagens, e seus processos e fluxos, com a eliminação da biodiversidade e alteração na dinâmica das águas.

Planejando corredores verdes

Por outro lado a Secretaria do Meio Ambiente da Cidade (SMAC) está trabalhando em um novo plano de Corredores Verdes para reconectar os fragmentos florestais e tentar conter danos ecológicos irreversíveis nas áreas de expansão urbana. Celso Junius, coordenador do Mosaico Carioca, junto com 20 especialista de 8 departamentos da cidade constituíram um Grupo de Trabalho que desenvolveu a proposta inicial para os Corredores Verdes (2). A Secretaria do Meio Ambiente fez um excelente trabalho com o mapeamento dos remanescentes de ecossistemas de Mata Atlântica da cidade e de disponibilizá-los amplamente na internet, onde é possível emitir relatórios de acordo com os diversos interesses (3). O “Sigfloresta” é uma ferramenta importante para monitorar de forma efetiva a cobertura vegetal e está sendo usada para desenvolver o plano dos Corredores Verdes.

Projeto que mimetiza a natureza nas cidades

O Inverde (4) está colaborando de forma voluntária, para desenvolver mais detalhadamente o plano de infraestrutura verde, focando inicialmente na baixada de Jacarepaguá. A bacia hidrográfica local é vulnerável à elevação do nível do mar, com a maior parte de suas áreas não tendo mais do que 1 metro acima do nível do mar atual. As áreas alagáveis e as áreas baixas estão sendo aterradas e os seus rios e córregos retificados e canalizados pelo sistema de macrodrenagem, que também é do século XX, quando se tinha a pretensão de controlar as forças da natureza.

Pierre Martin, paisagista formado na França (sócio do escritório Embya) e eu estamos comprometidos a contribuir para incrementar o relatório final dos “Corredores Verdes Olímpicos”, os quais irão conectar os fragmentos protegidos pelos maciços da Pedra Branca e da Tijuca através da Baixada de Jacarepaguá. O objetivo é aprofundar e ilustrar as propostas na escala da bacia hidrográfica e local para uma melhor compreensão do imenso potencial que existe ao se mudar para o novo paradigma sócio-ecológico que mimetiza a natureza na cidade, e de planejar a paisagem urbana para que tenha alto desempenho em diversas funções: para as águas, a biodiversidade e as pessoas.

Nós do Inverde, também acreditamos que educação e conscientização das pessoas é fundamental para que possamos obter suporte para a proposta. Nós promovemos e gravamos uma palestra aberta ao público de maio de 2012, a qual em breve estará disponível no Youtube. Nós também coorganizamos um seminário com a Secretaria do Meio Ambiente da Cidade e o Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro durante a Rio+20. Foi um evento oficial focado em especialistas e cientistas para trabalhar em conjunto para aprimorar o plano com base em ciência. Estamos todos comprometidos a dar andamento a esse plano de forma contínua, com mais pesquisas em ecologia urbana para melhor compreender os processos e fluxos abióticos e bióticos, bem como as relações sócio-ecológicas. A idéia não é fazer uma “maquiagem verde” (greenwashing) para a expansão urbana, mas mudar para um novo processo de planejamento transdisciplinar e para desenvolver métodos de projeto que incorporem conhecimentos científicos sócio-ecológicos.

Fernando Chacel

Existem exemplos locais de restauração ecológica que foram projetados por Fernando Chacel, o paisagista pioneiro com uma visão sistêmica. Ele planejou e projetou parques “estado-da-arte” ao longo das lagoas de Jacarepaguá, a baixada que sofre pressão de expansão urbana onde se localizou a Rio+20. Ele começou a projetar a recuperação dos corredores marginais das lagoas na década de 1980 até ficar doente em 2009 (infelizmente, faleceu no ano passado). Ele recompôs paisagens degradadas, reintroduzindo com grande beleza ecossistemas nativos e respeitando a sua fitosociologia. Ele trabalhou com equipes multidisciplinares.

Seu legado deve ser reconhecido e servir de inspiração para os novos profissionais: ele desenvolveu a teoria da “ecogênese”, onde foi aprender com a natureza para restaurar e proteger os manguezais, restingas e florestas paludosas de baixada. Seu livro Paisagismo e ecogênese (5) deveria estar disponível em todas as escolas brasileiras que ensinam sobre o tema.

O potencial verde do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro tem um enorme potencial para ser uma das cidades mais verdes do mundo, não apenas em mitigação de gases efeito estufa e em coleta e disposição de resíduos sólidos (dois alvos prioritários dessa administração).

A infraestrutura verde na escala urbana é espetacular e deveria ser preservada e aprimorada através da conexão dos remanescentes florestais, para que possam fazer a troca de material genético de fauna e flora, além de oferecer mobilidade multimodal, sistêmica, limpa, confortável e segura para as pessoas, principalmente para pedestres e bicicletas.

É urgente que os tomadores de decisões tenham uma real compreensão do papel da biodiversidade urbana para comunidades saudáveis, seguras, sustentáveis e resilientes. A natureza urbana pode oferecer inúmeros serviços ecossistêmicos onde as pessoas vivem, trabalham e se divertem: ao longo das ruas, em canais renaturalizados, em tetos e quintais, em parques e praças projetados para ter alto desempenho sócio-ecológico com plantio intensivo de árvores nativas (não palmeiras!).

notas

NE
Original publication: HERZOG, Cecilia. Connecting the Wonderful Landscapes of Rio de Janeiro. In The Nature of Cities – A collective blog on cities as ecological spaces. Posted on July 10, 2012 <www.thenatureofcities.com/2012/07/10/green-corridors-in-rio>.

1
Rio de Janeiro: Carioca Landscapes between the Mountain and the Sea. In website da Unesco <http://whc.unesco.org/en/list/1100/>.

2
Corredores verdes – relatório final. In website Mosaico Carioca <http://mosaico-carioca.blogspot.com.br/search?updated-max=2012-05-23T22:41:00-03:00&max-results=3>

3
Florestas do Rio. In website da Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio de Janeiro <http://sigfloresta.rio.rj.gov.br.

4
Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana – Inverde <http://inverde.wordpress.com>.

5
CHACEL, Fernando Magalhães. Paisagismo e ecogênese. Rio de Janeiro, Fraiha, 2001.

sobre a autora

Cecilia Herzog é paisagista urbana e mestre em urbanismo, presidente co-fundadora do INVERDE Instituto de Estudos, Pesquisas e Projetos em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana. Pesquisadora independente com foco em como as cidades podem se tornar sustentáveis e resilientes com a reintrodução de biodiversidade nativa em áreas urbanizadas para fornecer inúmeros serviços ecossistêmicos onde as pessoas vivem, trabalham e se divertem. Dentre outros projetos, Cecilia colabora voluntariamente com a Secretaria do Meio Ambiente da Cidade do Rio de Janeiro (SMAC) no desenvolvimento do plano de Corredores Verdes (Mosaico Carioca).