Mal recuperados da euforia, tristeza ou indiferença com as eleições presidenciais, os brasileiros foram chamados, na mídia e nas redes sociais, a "torcer para dar certo" porque, afinal, "estamos todos no mesmo barco".

Aqueles sentimentos correspondem à divisão do eleitorado num segundo turno em que pouco mais de um terço dos brasileiros votou em Bolsonaro, pouco mais de um terço votou contra e o restante votou em branco, anulou ou se absteve.

E como os primeiros adotaram o uniforme da CBF é bom lembrar que, assim como no futebol, não basta ter torcida, por fanática que seja. É preciso ter bons jogadores e que o time tenha o que o jargão de comentaristas e torcedores chama de disciplina tática.

É um fato da vida que nestes brevíssimos dias a equipe – ainda em montagem – do capitão não vem demonstrando nenhuma disciplina tática e tem colocado dúvidas bastante razoáveis sobre o talento individual dos jogadores.

Na macroeconomia, as desencontradas declarações do "posto Ipiranga" e do capitão já conseguiram deixar insatisfeitos ou irritados a China, a Argentina e os países árabes do Oriente Médio, responsáveis em conjunto por mais de 50% do nosso comercio exterior.

Não há torcida que possa fingir que é um bom começo, especialmente se lembrarmos que o juiz ainda nem apitou o começo oficial da partida.

No âmbito mais prosaico de nossas vidas cotidianas, já fomos presenteados com as notícias de que os ministros do supremo têm direito à "reposição das perdas salariais" dos últimos anos enquanto os brasileiros comuns terão que escolher, como informou o capitão, entre ter emprego ou direitos.

Então, mais do que debater sobre a eficácia da torcida, talvez caiba começar a perguntar se "o barco" é, de fato, o mesmo para todos.

As próximas semanas, mesmo antes dos próximos quatro anos, serão muito ricas para quem quiser, em lugar de torcer contra ou a favor, pensar a respeito.

nota

NE – texto publicado em jornal Primeira Página, São Carlos, 11 nov. 2018.

sobre o autor

Carlos A. Ferreira Martins é Professor Titular de uma Universidade Pública e Gratuita, por enquanto.