Mais novo e brevíssimo conto de amor de casal fofo — branquinho, cheiroso, hétero e temente a Deus — de curitibanos de bem.

1° ato – Durante viagem a Copenhague, Dinamarca, para comemoração de um ano de casados

Restaurante Bræddehytten, Copenhagen, 2013
Restaurante Bræddehytten, Copenhagen, 2013

— Moziquinho, eu to a-p-a-i-x-o-n-a-d-a por esse país! Só gente educada, bonita e simpática, daí!

— Não te disse, Guguzinha? Quando pesquisei no Google e sugeri Copenhague pra nossa viagem eu tinha certeza que ia ser massa! É primeiro mundo do primeiro mundo isso aqui!

— Como sempre brilhante, Moziquinho! Nada de Paris, Roma, Espanha... Esses lugares já estão infestados de excursão de brasileiro sem educação, daí! Aqui não, nem se escuta português!

— E com a vantagem que todos falam inglês, né?

— Claro! Gente diferenciada...

— E o que foi aquele smørrebrød com arenque e hortaliças que almoçamos, Guguzinha? Fala pra mim... Tô empachado até agora!

— Ahhhh, Moziquinho, eu vi na Globonews que aqui vai ser lei: só agricultura sem agrotóxicos e transgênicos!

— Capaz, é diferença no gosto mesmo... Dá até uma invejinha branca!

2° ato – De volta a Curitiba, Moziquinho e Guguzinha enfrentam trânsito na BR-116 na entrada da cidade, provocado por manifestação do MST contra plantações de transgênicos da Monsanto

Manifestação do MST contra os produtos transgênicos da Monsanto
Manifestação do MST contra os produtos transgênicos da Monsanto

— Que horror isso, Moziquinho! Bando de jacus sem louça pra lavar! Certeza que são sustentados pelo governo comunista do PT, daí!

— Tô de cara, Guguzinha, tô de cara! Olha, me deu vontade de descer e dar umas pauladas nesses tongos que vivem no chuncho! Parece que é gosto de atrapalhar quem trabalha e paga impostos!

— Viu os cartazes deles, Moziquinho?

— Uhum... Querem atacar uma empresa séria, que gera emprego e de padrão internacional, só faltava essa!

— Coisa de comunista, palha total!

— Esse estresse me deu até fome, daí! Vamos naquele espeto corrido novo do Batel?

— Aquele com o bufê de saladas enorme?

— Isso!

— Boa ideia! Como sempre brilhante, Moziquinho!

E viveram no Champagnat, fritinhos para sempre.

sobre o autor

Alexandre de Oliveira Périgo é um paulistano de 45 anos, pai da Clara e do Léo, que habita as Minas Gerais. Engenheiro e consultor de gestão empresarial desde que os continentes ainda estavam unidos, é também fotógrafo e escritor por amor. Outras paixões são livros, idiomas – se vira razoavelmente em sete –, basquete e curling.