A experiência de quatro meses aqui narrada é fruto do “Doutorado Sanduíche” financiado pela Capes.

Trata-se de um desdobramento da minha tese de doutorado “Os sistemas de espaços livres e a urbanização contemporânea: estudo de caso na região de governo de Limeira”, desenvolvido na Área de Paisagem e Ambiente pela FAU USP sob orientação do Professor Dr. Eugenio Fernandes Queiroga.

Mediante acordo entre a Faculdade de Arquitetura de Universidade de São Paulo (FAU USP) e o Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV) pretende-se estudar a composição da paisagem das cidades a partir dos espaços livres públicos e privados.

O estágio compreende o período de 15 de setembro de 2009 a 16 de janeiro de 2010 e estou desenvolvendo pesquisa sobre a experiência de novos exemplos de sistemas de espaços livres contemporâneos na Europa.

O trabalho se propõe a discutir e realizar projetos em escala regional sob o contexto da dispersão urbana sob co-orientação da Professora Dra. Maria Chiara Tosi, Arquiteta e Urbanista da Facoltà di Architettura – Università IUAV di Venezia.

As atividades didáticas

Durante o estágio estão sendo desenvolvidas algumas atividades complementares de grande interesse, como é o caso das entrevistas com especialistas da área – arquitetos, paisagistas e urbanistas italianos – sobre projetos europeus para bairros novos, projetos infraestruturais e espaços livres.

Vale ressaltar encontros com os professores doutores Laura Zampieri (arquitetura da paisagem, IUAV), Bernardo Secchi (IUAV), Arturo Lanzani (Politécnico de Milão) e Antonio de Rossi (Urban Center e Politecnico de Torino).

Estive também em diversas cidades na Itália, Espanha, Alemanha e Portugal, aonde visitei projetos dos arquitetos Renzo Piano, Vittorio Gregotti, Bernardo Secchi e João Nunes.

São arquitetos que estão envolvidos não somente em trabalhos de arquitetura de edifícios, mas também compondo uma nova arquitetura da paisagem.

Durante o estágio na Itália acompanharei seminários de estudo e disciplinas relacionadas a projetos regionais de arquitetura, e de paisagem da Facoltà di Architettura – Università IUAV di Venezia.

O objetivo principal era ampliar a troca de idéias, bem como debater os vários temas envolvidos na questão das dinâmicas de estruturação urbana contemporânea.

As dependências da escola são um show à parte. O edifício Tolentini em Veneza, onde fica a livraria de livros específicos de arquitetura e urbanismo e a biblioteca central, é projeto relativamente recente, realizado pelos arquitetos Carlo Scarpa e Sergio Los.

Dia 16 de setembro estive na Universidade IUAV no Palazzo Badoer onde encontram-se os departamentos e aulas de doutorado e também local onde há uma sala onde pesquiso e desenvolvo as atividades de Doutorado.

Nesse dia tive a primeira orientação com a professora Maria Chiara Tosi e conversamos sobre as visitas e pesquisas a serem desenvolvidas.

Como partido projetual utilizaram-se da memória dos jardins murados venezianos. É um projeto que procura combinar a necessidade de um espaço público muito freqüentado com o espaço da contemplação.

Visitas a Firenze e Milão

Visitei o novo Bairro San Donato, em Firenze, projetado em uma área ex-Fiat (áreas que aqui se chamam “aree industriali dismesse”). É uma operação urbanística com espaços multifuncionais.

Ainda está em construção e parte dela já foi inaugurada e é hoje habitada. Engloba parte residencial, área de universidade (inaugurado em 2003, pólo de ciências sociais, Faculdade de Economia, Direito e Ciência Política), área comercial e edifícios públicos, Palácio da Justiça.

O parque, com 120.000 m² na área central, foi projetado pelo escritório Studio Gabetti ed Isola e ocupa um terço do grande lote e no subsolo desse parque há um grande estacionamento de veículos. Numa área ainda de 200.000 m² começará a construção de mais edifícios de arquitetura contemporânea.

A área do La Bicocca, localizada na região nordeste de Milão e abrangendo uma área de 750.000m², é um projeto de autoria do arquiteto italiano Vittorio Gregotti. Há também edifícios projetados por Renzo Piano e Gino Valle.

Em feliz coincidência, participou da visita uma amiga de Faculdade de Arquitetura, Vânia Rossini, que mora há cinco anos em Milão e participou desse projeto.

Andamos por toda a área e fiquei sabendo um pouquinho mais do como é a vida cotidiana nesse espaço para lá de moderno.

Como toda “aree industriali dismesse” esse grande projeto é bastante comentado não somente nas universidades de arquitetura e ciências sociais, como também pelos cidadãos italianos.

São opiniões sempre bastante divergentes por se tratar de uma paisagem arquitetônica bem diferente daquela que os italianos estão mais acostumados a vivenciar.

Esse complexo monumental indica um novo pólo de centralidade urbana para a área metropolitana de Milão e contempla área comercial com diversos equipamentos e programas.

Há livraria, mercado e lojas de eletrônicos; grandes espaços abertos com praças; áreas de empresas como a sede do Grupo Siemens, sede do Grupo Pirelli e seu centro de pesquisa pneumática; Bancos como a sede da Deutsche Bank; novo pólo de Universidade de estudos, áreas de edifícios residenciais.

Temos até um shopping parecido com os nossos, com lojas, cinemas e grandes estacionamentos, além de um centro teatral de grande porte, o “Teatro degli Arcimboldi” que conta com estacionamentos subterrâneos.

O escopo do projeto englobou a reutilização de área industrial da Pirelli caracterizando-a com a mistura de funções e da presença de atividades de pesquisa e ensino universitário.

É considerado uma das maiores intervenções de reestruturação urbana realizadas na Europa nos últimos trinta anos.

Os principais problemas enfrentados foram a reconexão da área com o entorno, a regulação dos sistemas de acessibilidade e de serviços e definição de características morfológicas e de uso numa área privilegiada da região metropolitana.

sobre o autor

Alessandra Natali Queiroz, arquiteta pela Unimep, mestre e doutoranda em arquitetura e urbanismo pela FAU USP, possui o escritório Atelier 21 Arquitetura e Urbanismo